Podiam ter sido mais do que olhares quentes e profundos. Podiam. Podiam-lhe ter levado a alma, sugando-a, fustigando-a naqueles relances penetrantes. Oh, como podiam tê-lo feito! Podiam-lhe inclusivamente ter despojado do coração a verdade, esquartejando-a com aquelas safiras negras com que gosta de inquirir a mundanidade que o rodeia. Se o fizeram ? Não sei.
Aquele enamoramento rebelde de morosos segundos, com uma petulância e atrevimento ingénuo, chegavam a roçar a inocência envergonhada e o acanhamento cândido de quem não quer mais se não provar por rasgos instantes a loucura de desafiar a Fortuna, de quebrar o velho e descobrir novo, de calçar Hermes e voar ao Olimpo. Ah, que sensação de entusiasmo excitante, pulsando em ritmos frenéticos de descontrolado jubilo! Ah, que desejo, fantasia, capricho, o de o voltar a fazer vezes e vezes sem conta!
E sempre com o mesmo voluptuoso inconformismo, a mesma constante insaciedade, o mesmo apetite sequioso por essa droga que lhe injectava na veia a ousadia da confiança, na face o rubor da timidez, e no coração o sonho de uma mulher.
Bem sabe da lição cíclica da vida. Mas hoje cansou-se das rodas e decidiu andar a pé. Hoje continua e persiste na convicção de se negar ao conformismo de mentalidades fatalistas. Os julgamentos que tinha a fazer já os fez, as ilações já as tirou. Quer agora reescrever-se, reescrevê-la em nova página... Mas desta vez, com um lápis cor de magenta.
