domingo, 15 de janeiro de 2012

Trigésimo sexto: "O estranho cúmplice de Entrecampos"

Diariamente pergunto-me o que haverá de especial num vendedor ambulante de meias e cachecóis que todos os dias tardes e noites, ronda o terminal de comboios de Entrecampos. Para as bagatelas de autenticidade duvidosa que empolgantemente publicita pela sua característica voz de bagaço, lança mão de um feitiço de algibeira que conhece certamente apenas pelos muitos anos que deve ter já d’ofício: a singular e carismática exposição que faz das suas frivolidades irremediavelmente aromatizado por pingos de loucura do próprio. No frenesim diário dos fregueses que vão e vêm, adianta-se logo com anúncios roucos de boas-vindas às maiores pechinchas que Entrecampos já vira. Talvez por trafulhice, talvez por senilidade precoce, quantas vezes se engana na projecção de preços por erro das suas somas matemáticas do ‘compra um leva outros quantos’. Conseguiu sempre rasgar-me, por cada calinada desastrada dessa bêbeda negligência, uns sorrisos escondidos e empoleirados na pontada de curiosidade que me roubava, já talvez pela afeição que encontros diários incontornavelmente tendem a oferecer. E se desta fama de ladrão não se escapa, a verdade é que este apego que lhe nutro sei-o efémero de significação, sei-o balão vermelho que nas mãos de uma criança apenas preso fica a traiçoeiros, volúveis e escassos estados de boa-disposição.
O rosto descaído, os olhos carregados e a voz cansada, denunciam já o peso da idade e do passar dos anos neste homem que, talvez por falta de amigos ou almofada, faz dos transeuntes azafamados de Entrecampos seus convivas, dos pombos família e, dessa estação velha de sucata e enferrujado ferro, sua anfitriã e humilde casa.
Abdicou do perú nas ceias de consoada, da preguiça que o sono aos Domingos amarra à cama, de ensinar o filho a conduzir ou de levar a mulher ao altar, abnegou a comodidade de um emprego de secretária e com ela, renunciou também aos serões de pipocas e Woody Allen no sofá da sala ou às jornadas de família nas férias em Albufeira.

No fundo, talvez seja eu que tenho as prioridades trocadas… ou talvez não.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Trigésimo quinto: "Catarse"

Tenho um ódio especial por cobardes. Talvez porque eu mesma não me conformo com a resignação consoladora que um não-fazer traz.

Ah! como negar posso do conforto estável que um não-fazer me oferece? Não é ele afinal mais apelativo que o esforçoso passo em frente?, que a dolorosa e enferrujada iniciativa?, que o arranhado pronúncio da primeira sílaba? Quem será então esse cristo que tantas vezes alevanta aquela desarmante bandeira de coragem para nos fazer tremer a todos? Bandeira que dela muitos fazem almofada? Abjurei-me já dessa religião faz tempos. Fiz fé num cristo que usava da palavra e ousadia como criterioso mecanismo de retaliação social numa mistura embriónica que roçava o atrevimento, medido claro, pela anormal perspectiva que a sua autora fazia do ser e do estar. A presença de um eu teria de ter afinal uma transcendência simultaneamente voraz e aglutinadora, pensava, não só da sua como da personalidade do outro circundante, da esquina, do outro do café ao balcão e da fila para a casa-de-banho. SIM! Era desse conflito permanente, onde se imiscuiriam mutua e constantemente almas narcísicas, que brotaria a saciedade plena da insatisfação de toda e cada uma delas! Portas e janelas!, todas abertas!, desinibidas correntes de ar e saudosos arrepios qual catarse purificadora! Afinal de contas, pensava, que importavam as comiserações da timidez ou o tacanhismo que a distante polidez lustrava? Zero de garantias na felicidade de um. Não! Inibidas dissimulações à parte, o mundo pulava e avançaria num outro carrossel! A vida querer-se-ia cega de paixões rendidas a um ideal anárquico de regras e condicionismos, um livre-trânsito num hipódromo de sensações! Que era ela senão bruto baldio ansiosamente aguardando o despoletar de sol e chuva para neles germinar violetas flores?! Que importaria então o ócio da almofada, a segurança de um livro ou a timidez de um olhar? Tudo errado!: desconstruir e desarranjar seriam então as palavras de ordem! O desassossego imperaria sob a sua coroa para não mais parar: um eterno adeus à preguiçosa cobardia que nos consumia a felicidade, sanguessuga de imberbes vidas, injetando-nos uma constante esperança que, pujante, nos corria nas veias, e da qual fizemos alimento. Não era tarde demais!