Diariamente pergunto-me o que haverá de especial num vendedor ambulante de meias e cachecóis que todos os dias tardes e noites, ronda o terminal de comboios de Entrecampos. Para as bagatelas de autenticidade duvidosa que empolgantemente publicita pela sua característica voz de bagaço, lança mão de um feitiço de algibeira que conhece certamente apenas pelos muitos anos que deve ter já d’ofício: a singular e carismática exposição que faz das suas frivolidades irremediavelmente aromatizado por pingos de loucura do próprio. No frenesim diário dos fregueses que vão e vêm, adianta-se logo com anúncios roucos de boas-vindas às maiores pechinchas que Entrecampos já vira. Talvez por trafulhice, talvez por senilidade precoce, quantas vezes se engana na projecção de preços por erro das suas somas matemáticas do ‘compra um leva outros quantos’. Conseguiu sempre rasgar-me, por cada calinada desastrada dessa bêbeda negligência, uns sorrisos escondidos e empoleirados na pontada de curiosidade que me roubava, já talvez pela afeição que encontros diários incontornavelmente tendem a oferecer. E se desta fama de ladrão não se escapa, a verdade é que este apego que lhe nutro sei-o efémero de significação, sei-o balão vermelho que nas mãos de uma criança apenas preso fica a traiçoeiros, volúveis e escassos estados de boa-disposição.
O rosto descaído, os olhos carregados e a voz cansada, denunciam já o peso da idade e do passar dos anos neste homem que, talvez por falta de amigos ou almofada, faz dos transeuntes azafamados de Entrecampos seus convivas, dos pombos família e, dessa estação velha de sucata e enferrujado ferro, sua anfitriã e humilde casa.
Abdicou do perú nas ceias de consoada, da preguiça que o sono aos Domingos amarra à cama, de ensinar o filho a conduzir ou de levar a mulher ao altar, abnegou a comodidade de um emprego de secretária e com ela, renunciou também aos serões de pipocas e Woody Allen no sofá da sala ou às jornadas de família nas férias em Albufeira.
No fundo, talvez seja eu que tenho as prioridades trocadas… ou talvez não.
