Hoje olhei uma criança dos seus dois anos.
Não sei o que senti. Não sei descreve-la, mas conheço-a. Foi aquela chacinante sensação que me mordeu a espinha de brandos calafrios e logo me adormeceu os pés numa indeferível vontade de não me querer mexer. Ali: um obelisco e uma pretensão do mesmo, cobiçando reinos e impérios distintos. Ali: dois poetas mirando-se num curioso desconhecimento afagante de velhas lembranças perante novos sonhos. E, nuns olhos de tal profunda concentração, mergulhámo-nos querendo ser tudo menos nós: tu calçando os meus All Star e encarnando esta vida celeste de académica, desta idealista perdida num mundo que já não é o dela; e eu regressando numa introspectiva ingenuidade à conquista dos meus caracóis amarelos e de volta às despreocupações e desejos por fraldas limpas.
Não sei quantas vezes por dia quero ser ambas personagens, mas são muitas. Hiantes voos perfumavam-me a vida, hoje cada vez mais longe; a televisão resumia-se à fantasia de magos, heróis e princesas, não à desgraça, à sumptuosidade e capitalismo que tanto se deleita roendo o osso de quem não tem dentes; o meu cão era o companheiro que na minha ingénua infância crescia comigo, com a minha inocência, sem perturbações de fatalidades e quérolos dias de solidão e choro.
Tardes fabulásticas perdidas no desespero estúpido por ver correr o tempo numa só direcção...
Take care,
Maria Rebelo*

2 comentários:
'vezes por sia quero , o teclado pode realmente levar-nos a locura!!
muito bom maria, mesmo =P
Muito bom mesmo.
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