Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação.
Apesar das ruínas e da morte,
Foices daquela quimérica razão
Com que ousei fazer sua a minha sorte,
Venci! Ergo-me hoje, hirta do chão.
Onde sempre acabou cada ilusão,
Renasce agora em flor, por novo porte,
Qual temerária e assaz ambição:
Derrubar receios, sarar o corte!
A força dos meus sonhos é tão forte,
E tão firme a coragem desta visão,
Que no amor reencontrou o mesmo mote
De tempos idos: o escape, a salvação!
Que de tudo renasce a exaltação.
Que em tormentas do Verbo se ache o Norte,
Nessa bandeira a audaz libertação,
Destreza de cavaleiro a galope.
(inspiração: Filipe Bastos)
quinta-feira, 7 de abril de 2011
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Trigésimo terceiro: "Ses"
O mesmo olhar com que me habituou a desnudar meio mundo é ainda o mesmo olhar acutilante que me desventra toda a sensatez. Impotência.
E se de toda essa imensidão arguta, e se de todo esse negrume submerso, e se do ofuscamento assaz com que me cegou a razão, e se do torreão de suspiros com que me sugou de tristezas… Como deste tudo? Como só com um tão pouco? Como dos seus lábios cremosos, sussurrando já a este ouvido carente, tantas borboletas, tantas túlipas, quantas juras de infinito!; como das amarras daquelas astutas e ardilosas manápulas, tantas vezes poisadas nesta cintura refém, fácil cárcere de amores despóticos!; e da fragilidade deste desalentado peito… quantas vezes amparado fora pelo quente aconchego do seu lesto abraço? Quantas? Ah!, palco de mundos o dos apaixonados, qual lacuna entre todas as dimensões do sonho e as imensuráveis potencialidades da realidade, qual entrança aberta a devaneios de amor metafísico ensandecido.
Imaginemos que dele se despoletava agora – assim, de repente, sem mais!-, tão embriagada e selvaticamente, um tal celestial compasso de Beethoven remendado por um nova e rebelde sonata vivaldiana, sui generis, ao meu gosto! Bis da plateia! Persistência de aplausos por já cansadas mãos! Pois ei-la, qual composição mais bela: loiros melros, verdes pardais, graças lilases e pintassilgos grenás!, Primavera de lótus e Outono de rosas! Tela perfeita! Pois ei-lo ainda, mareando decidido aquela proa sem rumo, ao encontro do salvo e seguro porto do meu cais! Pois deixem-no encontrar nos meus olhos a mesma volúpia com que, enfeitiçada e hedonisticamente, me deixei afogar no calor dos dele. Apelem-se às bússolas e astrolábios, pois que estas duas marés de lua cheia se rebelaram na lasciva maresia do seu olhar. Apelem-se aos telescópios e a todos os tratados, pois que estas duas correntes de bravia vaga ainda por ora se digladiam contra aquele seu tão doce sorriso, amarelo guache com que melíflua e graciosamente pincela, num febril rasgo de vergonha, numa enferma denúncia por desejos, um outro que lhe devolvo.
E se…
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