terça-feira, 1 de maio de 2012

Trigésimo oitavo: "Palavras?"


É cada vez mais sinuoso este caminho que faço. Da ideia que cresce viva por detrás do brilho do meu olhar, um turbulento número de incongruências separa-a do texto que ora escrevo, represtinada e lentamente, nas teclas deste computador. Por tudo isto fica a tentativa e, talvez, apenas ela. A concretização do abstracto pelo mito da linguagem acaba por se transformar, invariavelmente, neste poço cadavérico da tentativa. Fugaz. Inconsequente. Sou, resignadamente, uma cativa do número de palavras de um dicionário. Estas amarras silábicas prendem-me a uma impotência para captar a realidade sensível numa articulação frásica. A palavra deixou, há muito, de ser o veículo. Já nem conto as vezes em que volto atrás para compor o raciocínio, tantas são. No fundo, em mim, toda a ideia se perde. Nunca uma fuga de informação se viu tão desvirtuosamente perdida. A metafisica deixou de viver na cor das minhas letras.