Pergunta.
E se eu hoje bradasse aos sete ventos o meu desprezo por ti e por todos os que te rodeiam? E se eu dora avante deixar de engolir o sapo que me afoga no delírio nocturno da minha sobeja existência, e devolver-to no mesmo tom agreste? Causará pasmo algum a concepção do profético pato feio ungindo à luz da criação? Que repugnância pode efervescer no corpo debalde de um fantoche conduzido no bulício de gente atroz? Este fantoche autómato que te despreza na exacta medida do teu desprezo por mim. A todos presto com a aromática complacência do meu sorriso dócil; de todos recebo a falsidade espúria desventrada por um olhar obsceno. Faço então por me perguntar do porquê da asquerosidade torpe da vivência humana, de um porquê verosímil, hábil que baste, para me exumar a razão.
Por que é que eu sei que ninguém quer saber daquilo que eu sei? Por que é que todos correm na ânsia de procurar saber tudo o que outros souberam. E por que é que os que não querem saber da sabedoria para nada, pensam ainda que sabem mais do que os outros que querem saber? Fico-me por aqui... não quero saber de mais nada.
Take care,
Maria Rebelo
