quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Vigésimo sexto: "Murmúrios de vacuidade existencial"

Pergunta.

E se eu hoje bradasse aos sete ventos o meu desprezo por ti e por todos os que te rodeiam? E se eu dora avante deixar de engolir o sapo que me afoga no delírio nocturno da minha sobeja existência, e devolver-to no mesmo tom agreste? Causará pasmo algum a concepção do profético pato feio ungindo à luz da criação? Que repugnância pode efervescer no corpo debalde de um fantoche conduzido no bulício de gente atroz? Este fantoche autómato que te despreza na exacta medida do teu desprezo por mim. A todos presto com a aromática complacência do meu sorriso dócil; de todos recebo a falsidade espúria desventrada por um olhar obsceno. Faço então por me perguntar do porquê da asquerosidade torpe da vivência humana, de um porquê verosímil, hábil que baste, para me exumar a razão.

Por que é que eu sei que ninguém quer saber daquilo que eu sei? Por que é que todos correm na ânsia de procurar saber tudo o que outros souberam. E por que é que os que não querem saber da sabedoria para nada, pensam ainda que sabem mais do que os outros que querem saber? Fico-me por aqui... não quero saber de mais nada.

Take care,
Maria Rebelo

4 comentários:

Anônimo disse...

Eu só sei que nada sei. Onde é que eu já ouvi isto?

Filipe de Arede Nunes disse...

Quando me encontrar, faça-me o favor de vir falar comigo.

Cumprimentos,
Filipe de Arede Nunes

Filipe disse...

É triste mas verdade. Não querem saber. Mas se soubessem, quereriam saber.

Muito bem escrito. E reconheço isso, apesar de prosa não me cativar particularmente.

André disse...

"Por que é que eu sei que ninguém quer saber daquilo que eu sei? "

Em primeiro lugar perdoa-me por ter desrespeitado o teu pedido de não ler o que escrevias. Não resisti no entanto a fazê-lo e ao ler-te, neste "gosto de falar contigo" fiquei confuso com o pedido.

Em segundo lugar. Tu escreves e escreves bem. Sem querer entrar na óptica do elogio desmedido, parece-me a mim que a tua escrita é um palco aberto para uma evolução constante. As palavras que usas reflectem múltiplos sentidos, reflectem a tua complexidade, a complexidade de quem cria pequenos universos e isso para mim é fascinante.
Escreves o que sentes? Ou sentes porque escreves? É a pergunta que me coloco muitas vezes e ou muito me engano ou tu estás a conseguir uma súmula de ambas as questões.
Para não complicar mais, gostei. E gostei da forma como usas as palavras, por vezes de forma demasiado complexa, mas gostei.
Abriu-me o apetite para a tua leitura e, perdoa-me, mas por mais que peças para não ler o que escreves, já passei o ponto irreversível.

Abraço