quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

O décimo segundo: "Hibernação, estado necessidade"

Excelentíssimos concidadãos,
Venho usufruir deste maleável instrumento de divulgação social, para vos enunciar a minha triste, ainda que necessária (pois a vida carece de tempo para o ócio), "hibernação" que, por sua vez, se irá traduzir em desesperante cansaço e queimadas pestanas durante o próximo mês! Acontece que isto de ter exames tem muito que se lhe diga, ainda para mais quando se tem certos e determinados professores que, não duvidando da sua carismática e generosa alma, gostam de martirizar os alunos ao ponto de quase os deixarem entre depressões pessoanas axiológicas e crises platónicas schellingianas: sim, esses maganos professoresecos que se deliciam tanto quando um aluno desembucha em pronto, tudo o que forçosa e arduamente embuchou, tudo o que engoliu nas quinhentas mil horas que perdeu! E perdeu para quê? Para nunca mais se lembrar da razão do embucho (quer dizer, da razão talvez não, mas do próprio embucho...)! Ora aí está: professor que o é, e se preza por sê-lo, manda os alunos marrar 1000 páginas em detrimento de mandá-los perceber 2000! (Pedir-vos-ei perdão, caros leitores, pelo palavrão que se seguirá, pois já é segunda a vez que o emprego) mas a “magana” dogmática verdade da avaliação revela-se nestes ditames: ou se diz que X vírgula Y ponto final Z abre parênteses travessão W, ou se diz que X porque Y ainda que Z não esquecendo a problemática W... haha! e pois então, não adoptada a primeira alternativa, não ditas as aspas e as exclamações, eis senão que, já que não conseguiste engolir com todas elas nos 20 dias de "talvez-não-férias", agora tens a paga de, porque exigindo a fome saneio, comer com um: "temos pena, levas um 10 porque não percebeste a matéria" (what an irony)! Em vão lá se espumam os pródigos alunos, esses sim exemplares, contra as tirânicas e iníquas exigências normativas pois perpetua manter-se a cavada a fossa, que abruptamente lhes fissura, logo ali, toda a eventual réstia de interesse. Foi-se!
Assim me esperam quatro semanas em quadrada cerca por muralhas de livros envolta, em recato canto, naquela sábia biblioteca da esbelta escola por que me enamorei! Boas entradas para vós pois as que me esperam, bem, essas já vocês conheceram.

Take care,
Maria Rebelo*

Ah, verdade seja, pois sabeis vós quem fará 19 em ortodoxo natal?

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

O décimo primeiro: "Amanhã será Natal"

Noticia:
12h00 do dia 24 de Dezembro de 2008. Toca o telefone:

Arrastou-se, literalmente, pesado manto de tristeza pela família Rebelo: irmãos, tios, primos.
Porque deixaste correr tu esse maldito tempo idiota?, como é que ainda não foste capaz de enxergar, que deixá-lo correr joga sempre contra ti? Foram dias e meses de progressiva dor: primeiro as costas, depois os dois pulmões, agora os dois peitos: sinais na carne fraca, desfeita, meticulosamente marcada em negros pontos, dispersamente ligados por enfraquecidas sinapses que brevemente ditarão o teu futuro próximo.
Na silhueta curta da tua bacia negra transparece todas as cataclísmicas consequências dos teus actos desmedidos; no teu peito pinta-se o prazer-virado-ódio da devassidão que experimentaste em todos estes anos. Inconsequente te tornaste: preferiste não pesar, em iusta balança, as previsões irrisórias, utópicas, inimagináveis do vício que cegamente te iludia e que extasiadamente vivias, mas cujo esforço incomensurável por abandonar era tal que, dizias, não o merecia. Era tão bom não era?: a felicidade da nova passa dada no nojento cigarro poisando em lenta decomposição naquele cinzeiro tão velho como tu; o alívio com que satisfazias a paradigmática incompreensível necessidade que permanentemente te irrigava o cérebro mas que, anatomicamente, o teu corpo rejeitava com sorriso forçado e contraída careta; o prazer de o sugar num trago, senti-lo entranhar-se na garganta para depois voltar em arranhado remoinho para um estatutivo bafo que ditaria o seu desvanecimento.
Se te arrependes ou não, nada sei. Todavia é certeza, que a irresponsabilidade desmedida do teu prazer egoísta repercutir-se-á noutros que não tu: partirás para onde temes, mas que género de sofrimento será esse que te alivia a dor? Dizer-nos-ia Platão que a morte não traz medo, antes alívio, visto ser o sofrimento coisa terrena. Pois bem, na comparação entre os que cá ficam a chorar por ti com a tua irreversível viagem só de ida: quem é que se arrastará, dias sem fim, pelo depressivo pensamento de que agora tudo (ele) é irrelevante?, quem é que, em vão, conseguirá conter o impulso das pendulares lágrimas que temerão cair sempre quando, de relance, se cruzar contigo em estáticas fotografias e te recordar em melancólica vivescência?, quem é que conhecerá no corpo, o ardor do arfante peito incontrolavelmente domável pelo nervosismo do desespero de quem perdeu quem ama? Eles e não Tu!
Ainda assim (como?), depois de tudo dito, choro tanto por ti...

Pois bem, só para alguns será amanhã Natal...

Take care,
Maria Rebelo*

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O décimo: "Último sôfrego de rasura"

Em vão versei-me sobre objectivos que estupidamente previ servirem para alguma coisa. Em última análise procurei a forma que mais facilmente me permitisse chegar junto a ti, que me permitisse eclodir com a frieza do teu carácter, barreira essa que tanto me amedronta mas que, paradoxal e antagonicamente, eu tanto admiro.
Pois bem agora, dias volvidos, horas passadas, decisões discutidas e acções reflectidas, envergonho-me por tudo o que (te) fiz. Que direito tinha eu afinal (insignificante criatura que se julga promessa, fã, pessoa) para me "intrometer","abedelhar-me" na tua vida, dirigindo-te conselhos sobre matérias das quais nem tenho o condão de conhecer, epigrafando altivos palpites julgando ser fiel conhecedora da vida, experiente ombro conselheiro, mitológica deusa vidente, consciência vagabunda exteriorizada, quando, afinal, dela nada sabe?
Árduo foi o trabalho de 'pesar as imensuráveis' consequências que adviriam desta reles confissão condenada. Adiantei-me pelo caminho da direita, consciencializando-me do dinâmico passo que teria de acompanhar, das pegadas em movediça terra que teria de calcar. Mas perante a única alternativa que o flagrante fado me disponibilizava optei por acatar as decepções inerentes a esta confissão medonha, preferi a opção que implicará vexar-me doravante cada vez que contigo me cruzar, escolhi o pejo que jamais me deixará erguer-te os olhos (nem relance, nem surdina, nem nada), tomei a opção de desiludir duas pessoas que tão ingénua e genuinamente admiro porque, egoísticamente, não aguentava a pressão da mentira. Pois não é, afinal, "contar a verdade", apenas a preferência do teu sofrimento ao meu?, esta atitude egoísta de preferir passar-te a ti o testemunho da dor que antes, sozinha, só a minha consciência experimentava, só exclusivamente eu conhecia?
Invoco, por toda a honestidade que tenho, o perdão a que suplico atendas. Tudo o que eu queria era a possibilidade de, sem medos, poder dirigir-te conselhos; tudo a que sonhava era, sem hesitações, louvar-te e clangorar o quanto te admiro; o tudo a que eu aspirava era uma só oportunidade de, sem rodeios, poder falar-te fora desta óptica separatista, cismática, que irreversivelmente nos une; apenas procurava a pequena brecha que irrigaria de coragem o meu corpo e lhe conferia destreza suficiente para abertamente te “ajudar” a amputar a tépida tristeza que via (ou queria ver) na tua expressão, porque queria (e quero) vê-te sorrir.
Pois quem me ditaria onde encontrar a coragem necessária para dizer-te isto pessoalmente?! Nem tão-pouco conseguiria explicar (caso me perguntasses) como fui eu dizer-te, pedir-te tudo aquilo, naquele solarengo dia de Outono, naquela horrível e silenciosa sala da biblioteca, quando o resto do mundo desejava que assim não fosse?
Não se explicam os impulsos; já as decisões irracionais, mas que daqueles se divergem por apelarem à consciência egoísta do ser humano, como seja a de principiar a escrever tudo isto, pode-se (deve-se) explicar. Ora como justificado acima ficou, resta agora colher os frutos da árvore que plantei. Compreenderei se ao leres este texto, ponto final da estúpida história que quis criar, o queimes e, sem hesitações, corras na minha direcção para me censurares de todas estas calamidades que cometi; mais: esbanjar-te-ei os meus dois braços, para que juntos façam quatro as mãos manejantes do pesado chicote que se derriçará contra o meu frouxo corpo prófugo e errante, marcando-o de desilusão própria e alheia.
Resta-me, confissão feita, pedir novamente perdão, desta feita pelo martírio da extensa leitura e pelo melodrama nela enredada. Mas acontece que a minha vincada personalidade vincada faz os meus princípios e, assim, sempre que um deles desaba em terra, de arrasto, e sentidos, desabam outros tantos como seja o do respeito próprio.

Fica um perdão sincero.

Take care,
Maria Rebelo*

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O nono: "Eduardo Vera-Cruz Pinto"

Pela primeira vez chorei eu a (por) um professor: 2008, 19 de Dezembro, hoje!

Quedam-me as palavras para descrever o momento em que se encenou fugaz peça de primogénitos actores, faltam-me as justificações para argumentar o porquê das apaixonadas réplicas proferidas, escasseiam os motivos que expliquem como ganhou a minha voz sopro para falar contra a seca languidez que me arranhava a garganta, perdem-se-me as razões por que não me consegui eu derriçar contra as húmidas lágrimas que teimaram cair; mas jamais poderei contrariar que o fiz porque eu o Amo como nunca amei ninguém. Um amar que só os que tiveram o deleite de o conhecer, homens e mulheres, saberão decifrar; uma amar que vai para além daquele vulgarmente empregue e que estupidamente faz do homem besta inconscientemente cega: não, este é um amar diferente, um amar de respeito que voa para além daquele que compartilhamos com o parceiro na vida dos 60; não este é um amar decalcado, um amar de idolatria mas, ainda assim, que se ergue acima dos falsos ídolos de revista com quem jamais conversámos e de quem não sabemos mais do que o que nos querem mostrar as bancas; este é um amar distinto, um amar de reflexão que supera o que nos chega ao topo da consciência quando nos ensinam os erros as lições. Eduardo Vera-Cruz é um Alguém maior que tudo isto!, que o seu somatório!, é um Tudo que assombra a dialéctica de Platão e a retórica de Sócrates, é um Homem que no mesmo patamar de Cristo se coloca (o colocamos) pelo respeito que lhe prestam os seus fieis alunos, ou pelo amor que plural e indistintamente este lhes dedica... é um Professor!, foi O meu Professor!

Já sei porque me escorreram hoje as lágrimas quando disse que lhe tirava o chapéu...

Take care,
Maria Rebelo*

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O oitavo: "Luta"

(Hoje dedico-me aos que me poderão ler.)

Quais que cruéis as penas fatais sentenciadas pelo indomável e inexplicável conceito de amor. Genes enfurecidos, turbilhando ao fervor de novo lance, à excitação de novo olhar, ao fugaz vislumbre de novo sorriso. De imediato soltam-se os inquestionáveis dilemas dos “porquê?”, dos “como?” e que constantemente não arranjam resposta; seguem-se os suspiros e os desejos dos ”há esperança!” dos “sei que sim!” frequentemente findados em longínquas miragens permanentemente inalcansáveis. Custa tanto vê-los cair, um após outro: loucos desejos de amor, momentos de ilusória paixão… oh mas custa tanto mais ver-te todos os dias nesse teu ar imperial de irreverência, majestade invicta, perfeita postura soberana de justificada arrogância, querer tocar-te, afagar as minhas mãos debaixo do teu manto num abraço intemporal, beijar-te suave e ternurosamente o pescoço mal barbeado, despedir-me de ti com uma lenta carícia na tua macia face pálida, poder mostrar-te o sorriso terno que te acordaria todas as manhãs e o “dorme bem” melodioso de quem aceitaria deitar-se contigo todas as noites e, no entanto, nada te podendo dizer, nada te podendo fazer.
Estenderam-te virgem tábua rasa onde escreveste as tuas pretensões, onde traçaste o teu destino em caligrafia negra e simbólico ouro. Rever-se-iam todos os outros na tua irreal feitura e o banal mundo da nossa felicidade ruiria por incompreensão de facto (e voltam os “como?” e os “porquê?” e eu que deles não me consigo livrar!).
Mas a chama acesa temerá perdurar em lume brando, permanecerá o jogo de inigualáveis titãs derriçando-se por senhoria pomba real (esperando gaiola aberta): um eu ambicioso, determinado, mas imberbe; um tu vulgar, feio, injustamente amado. Invejo-te sua malfeitora duquesa, pomposamente colocada em alto pedestal, sua concubina prematuramente lograda (pois o que não sabes tu, é que foram jacobinos os que a história escreveram, e que ainda estão para vir!).

E eu que jamais pensei odiar tanto os que te amam; que jamais pensei gostar tanto dos que te odeiam!

Take care,
Maria Rebelo

sábado, 6 de dezembro de 2008

O sétimo: "Perdidos"

Ontem foi história. Amanhã será incerto. Hoje é uma dádiva, e é por isso se chama Presente.

Melania Lucina nesta noite pávida de Inverno. O gélido frio atrapalha-me o temperamento são dos meus pensamentos:
Salteadora de sonhos, distribuis bêbados sorrisos cêntuplos na orgia vida que levas. Ontem sodalício, amanhã confraria, hoje contubérnio, hoje caçoada, amanhã zombaria, ontem devassidão. Não Não Não. Basta! Torna-te útil. Expele-te dessa insalubre prisão em que te encarceras, maldita enxovia seja! Irriga-te contra o desterro solitário de amor que te trouxe com ele para um ermo exilo de falsa felicidade. Abre-te do exíguo cubículo em que te resguardaste pelo medo que o afrontoso fado te oferecia e faz-te o fígulo do teu próprio. Rejeita essa dádiva irresolúvel que te estendem os infortunados deuses e constrói o teu, farto noutras alegrias que não essas tão pequenas, tão terrenas. Faz da tua insatisfação cotiada e roçada, hiante pretexto para um progresso que não jactancioso. E então pisa com fervor orgulho a mofa farelice e o sarcástico escárnio dos que por trás da empáfia máscara dourada que envergam, desejam desesperadamente ser como tu.


“Já é hora”dum novilúnio…

Take care,
Maria Rebelo