quinta-feira, 21 de maio de 2009

Vigésimo primeiro: "Lições de vida...."

Argonautas, por que vos tomais
diferentes num reino de iguais?
Seus jovens no sacrilégio
divino, recusando não crer
mais além do vosso mérito,
descorando do equilíbrio,
trejeiteado improfícuo?

Ontem julguei-vos meu pedestal.
Hoje, naquele mesmo empenho,
beberia do mesmo gral e
com o peito berrando em pleno
grito, revelaria o cume
da minha rosa em novo flume!

Porque é com a queda que se vê quem iça a perna para caminhar em frente...

Take care,
Maria Rebelo

(Camões, cada vez que eu tento subir chego sempre à conclusão que tu é demasiado grande. Eu bem que continuo a tentar...)

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Vigésimo: "Retórica existência"


Hoje olhei uma criança dos seus dois anos.

Não sei o que senti. Não sei descreve-la, mas conheço-a. Foi aquela chacinante sensação que me mordeu a espinha de brandos calafrios e logo me adormeceu os pés numa indeferível vontade de não me querer mexer. Ali: um obelisco e uma pretensão do mesmo, cobiçando reinos e impérios distintos. Ali: dois poetas mirando-se num curioso desconhecimento afagante de velhas lembranças perante novos sonhos. E, nuns olhos de tal profunda concentração, mergulhámo-nos querendo ser tudo menos nós: tu calçando os meus All Star e encarnando esta vida celeste de académica, desta idealista perdida num mundo que já não é o dela; e eu regressando numa introspectiva ingenuidade à conquista dos meus caracóis amarelos e de volta às despreocupações e desejos por fraldas limpas.
Não sei quantas vezes por dia quero ser ambas personagens, mas são muitas. Hiantes voos perfumavam-me a vida, hoje cada vez mais longe; a televisão resumia-se à fantasia de magos, heróis e princesas, não à desgraça, à sumptuosidade e capitalismo que tanto se deleita roendo o osso de quem não tem dentes; o meu cão era o companheiro que na minha ingénua infância crescia comigo, com a minha inocência, sem perturbações de fatalidades e quérolos dias de solidão e choro.

Tardes fabulásticas perdidas no desespero estúpido por ver correr o tempo numa só direcção...

Take care,
Maria Rebelo*

sábado, 9 de maio de 2009

Décimo nono: "Desatino de momento... quem não os tem"

Ridículo desgosto de ter por que lamentar. Sensação cortante de poder libertar o ego que há em mim e não o querer fazer por rancor próprio. Mesclas de pensamentos pueris que só sobem no ar ao balanço da rajada. Que circunspecção enfadonha esta de querer o céu e olhar o chão, este vil travão que te frustra o lance. Sei que a saliva que expele a minha vontade ou a voz que dou às minhas palavras, diluídas ficam em pensamento alheio pelo que me resta mergulhar em mim própria num tenaz capricho de não sair. Impotentes!

Falsos são os líderes que colhem mas não plantam, que falam mas não ouvem, que floreiam espevitados palpites e não alimentam. Sai-lhes demagogia das caras palavras com que conseguem, num sumptuoso discurso, revirar olhos e extorquir caretas: "Eis o fausto!". Tristes!

É que é tão fácil exprobrar proxenetas obnóxios. Todo o mundo o faz. E ri-se... ri-se porque não se revê na personagem, incólume por crer não se transudar na imensidão dos seus actos prenunciados. Enganado!


Take care,
Maria Rebelo