domingo, 29 de novembro de 2009

Vigésimo oitavo: "Ressuscitaremos ainda que nos custe a vida"

Não consigo explicar hormonas e acho que todos pecam pelo mesmo; o que é estúpido. Qual é o sentido que faz as coisas não terem sentido algum?

A lógica que costumava curva-se sobre a vincada verga daquela esdrúxula realidade que a consumava, e da qual se esgueirava num subterfúgio gárrulo, noutras tónicas depois grassando; onde descansa ora?
E da doce metafísica ignota que rogava ao granjeio, qual prece gravitante pulsando no meu organismo. Imiscível com o opaco e humilde desejo meão deste ser sem jeito?
Outrora dos ventos vinham as naufragadas descobertas dos argonautas de sublime heroísmo; hoje colhem os vencidos e antitéticos cânones que, telhando a sua categórica premissa, depois dos majestosos adornos em popelina rubra, lá secam o jacente leito da minha sede, estancando a lesta seiva da minha vontade, exaurindo os sobejos dos meus cadavéricos desejos.
Serei menos eu por pespontar-me num murmúrio vácuo, sem rédea que me tome, sem freio que me prenda ou cais que me arraigue sempre que esse mar ameace a minha proa? Por que voos me terei de lançar?, que purgatórios?, quantas chagas? Abolia assaz?

Porque não dos fastidiosos desesperos por cobiçada anuência para nova travessia quando sabemos que ressuscitaremos ainda que nos custe a vida?

Take care,
Maria Rebelo

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Vigésimo sétimo: "Anagrama"

Ponho-me a pensar...

... que às vezes devia pensar menos. Devia?
Dou por mim submersa num tumulto de contradições anárquicas, embeiçada em combalidos alvoroços desapaixonados, piruetas ousadamente irreverentes mergulhados na azafamada lógica do meu pensamento. Sou eu a dar por mim, minguada na minha mísera mesquinhice, na minha insurrecta insatisfação, indagando-lhes as entranhas, eu aviltando-lhes as aspirações, eu saqueando-lhes a vangloriosa jactância com que julgavam astutamente poder-me destraçar, descartar, nesse holocausto de esquizofrenia exasperante. Eu?
(De novo...) Gostava de saber como abraçar o cândido canto com que o alevanta o vento o fado. Gostava de saborear a silhueta do rutilante desprezo, provar da vagabunda irreverência, hastear o meu orgulho à boa maneira nacional, dissimular da velha carranquice, converter-me ao zelo à amotinada obstinação anódina. Gostava?
E, às voltas na mesma prece, continuo rogando ao carácter e gorando o juízo; e, jazindo em mim, naquela perseverança desmedida e desnorteante de indagações de bruta estupidez, lá persiste na mesma teimosia, o mesmo catarro; e, cessando a tépida e tíbia coerência do já frouxo existencialismo atroz, no soar vindo de trovas grajeantes e em sedutora dança final, ateiam-me, no seu último e derradeiro regozijo, as sobras e sobejos na lacuna, na clareira da minha sanidade ida.

"Tento, e contra Eurípedes nego: nem caindo liga"

Take Care,
Maria Rebelo