sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Décimo quarto: "A hermenêutica da vida"

Melancolia assole-me a alma; cansaço o corpo.

Ilusórios são os poucos momentos de feliz contentamento, cavados em amargura e desabados ao mar revelada a mágica. Purgantes fólios, de folhas em cal pintadas, ornamentam a tépida história da minha vida. Queria soçobrar num momento perdido do passado, revirar página que fosse deste perdido conto, acrescentar exclamações nos beijos carnais, hipérboles nos risos beatos, e eufemismos na dor cortante experimentada; quero ostentar o que foi o meu devasso mundo dos 7 anos; queria e quero esculpir em novo barro, lembrar a casta que outrora me fez feliz! Oh como queria… como queremos todos nós!
Mas a exegese da cor do dia e da noite, num soar que tanto nos amedronta, esquadreja-nos as pretensões fabulásticas sem mais, derrubando a infantil criança que teime resistir na alma de um poeta, arrastando-nos para o érebo da civilização. Cabalísticas âncoras em ameno e calmo mar; prisioneira da tua estagnada mente sã; rédea do teu espírito; falso escopo do teu desejo. Também te pintaram não foi, num anacoreta?, numa tela em perfeito corpo?, num ermo palácio como casa?, e numa abusiva harmónica vida solitária na ânsia de pretensiosa meta? E agora?, qual é a sensação desta verdade?

Take care,
Maria Rebelo

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Décimo terceiro: "Alquimia"

Pensamentos esgotados (?) por entre ensanguentadas paragens; paradeiros deambulantes ao sabor de nova viagem, ao princípio de novo fim. Mas para quê?

Rasgam-se os bosques da divina dríade em nuas e desenxabidas planícies, despidas de folhagem, de vida; corro-as em lânguida rapidez, desalmadamente expelindo, a gritante sôfrego, a vontade livre do meu crer! Quero que a dubiedade restante no soalho da proa, na aurora brecha de luz ou na insalubre sombra do sol poente restante neste prófugo mundo, exaltem a sua grandiosidade, envaideçam a lira música com que canta, que vaidosa e deslumbrantemente a ornamentam, que nos enfeitiça sem resposta. Cresça a dúvida, alimente-se a ignorância pois só ela trás a “feliz beatitude”. Pois que seja tudo a dobrar: tanto porque livre de gritantes apoquentamentos que nos consomem a alma como pelo prazer por filho de perfeita mãe! Que se consuma o homem na natureza numa fluência de línguas que só eles conhecem!
Não, hesito, quero mais; não chega para colmatar esta ânsia de possuir no que vejo o que quero! Quero um mundo perplexamente vago, berço de homens de arcano destino. Persegue-te por loquaz garrulice, jaga social, qual eloquente virtude a seus olhos, e verás que, sem embargo, acabarás tão cego como nós, perdido entre fuscos olhares chacinos. Essas questões metafísicas, ficção científica, pretensões eugénicas, já mais cobrirão tamanha fêmea, da mesma forma como jamais ganhará a vaca asas ou falará o melro português. Aflorem-se pois todos vós (nos precisos términos económicos) em "price takers" científicos que a resignação não raras vezes vos será útil e poucas vezes funesta. Pois não é o que nos diz o desconhecido autor do génesis? Porque rejeitas então tuas origens? Porque foi o homem castigado senão pela estúpida tentação de Eva, essa aí, desencaminhada por tamanha manha animal? Modéstia e humildade, porquê sempre esquecidas?

Encontra em Arcádia o teu rumo, faz de Alberto Caeiro o teu mestre, e das aspirações da perita sapiência o labéu do caminho, o desejo especioso rendido na perdição do bréu nocturno, o grande pecado cristão que tu, meu irmão, ousarás renegar!

Take care,
Maria Rebelo