segunda-feira, 8 de junho de 2009

Vigésimo terceiro: "Arte de satisfação"

Vê o vento passar do lado de fora da janela... mas não passa só...

A muito aspira o homem de facto. Naquelas suas caminhadas petulantes, de auto convencimento, por que gosta de dirigir o seu barco, constantemente ousando subir novo degrau rumo ao berço que tanto diz aclamar por seu nome - porque ele ouve-o, quer ouvi-lo. Ah, tantas vezes o sonha! Sonha-o naquele aspirante minuto intemporal por que se deixa levar junto à janela: ali ele é e foi brisa. Sonha-o numa ávida fome de não o deixar fugir, denunciando o calafriado medo de perder aquele calor que o consome, que lhe dá asas, o único que conhece. E ainda bêbado no mesmo especioso conto quimérico, cobiça mundos e fundos: olhando o céu, enxerga o império! Voa-lhe o imagético e insaciável querer: revela-lhe o cosmos as paixões, os amores que lhe saciarão a carne e o sanarão dos desgostos vis com outra cura que não divina; estendem-lhe o trono fértil da jubilosa riqueza tão sofregamente querida e que tanto lhe enche os bolsos doutra coisa além do ouro: a confiança que esbanja agora nos sorrisos pródigos!

Chegou. Tinha que chegar, sabia-o. Matou-o o tempo idiota... Levou-o o vento insolente... E voou poeira uma vez mais!

Take care,
Maria Rebelo

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Vigésimo segundo: "A quem acreditou em ti, profana, eis a tua dedicação"

A profana.
Qual profana que ousa entrar na tua casa; a profana que renega a nada em prol do tudo; a benigna profana que quer sempre mais do que pode, que sempre quererá; a profana que cobiça o fundo celestial do céu que olha; a profana que se esputa, gesticula, encrespa contra a sagaz loquacidade dos astuciosos que lhe pintam o nariz de vermelho diariamente; essa profana que se regozija com a imódica fatuidade e jactância dos pequenos que tanto gozo lhe dá; a profana que sonha alto no metro, que sabe o que quer mas não como o querer; a profana que quer o dela e o nosso; a profana que se disputa a si mesma na saga dos mesmos escopos por que decidiu traçar seu caminho; essa profana que se desilude permanentemente na sua vida inconsequente, vida que vai rabiscando, vida virada apenas para a ingenuidade própria, qual poeta jovial; essa dada profana que tantas vezes enverga a máscara dos sorrisos na aparente realidade que sabe falsa, que sabe nunca ser bastante; essa profana que prefere abrir as asas a contemplar o céu!

Vai e volta profana... volta quando conseguires dizer tudo isso; volta àquilo a que sabes pertencer; volta ao teu princípio! [Volta quando tiveres de voltar...

Take care,
Maria Rebelo