Dei por
mim sentada num sítio de algures, num banco de ninguém, tropeçando em porquês e
comos no caos da desordeira trovoada de pensamentos que me alvoravam à alma a apatia e prostração da minha comunicação com o redor. Dificuldade tanta em
compreender seja o que for…
Do pano azul e
estrelícial desse céu de sonhos, chegava-me um canto de pardais; uma melodia
reguila de inquietações, transpirando uma felicidade e acalmia que só num
ambiente primaveril nos é permitido saborear. Nos enlaces orquestrais do seu canto,
as notícias de um mundo em movimento, de uma civilização denunciada em recortantes
diálogos de perturbados transeuntes, bêbados de circunspecções, pródigos no
encanto próprio de cada um e hipocritamente amarrados a uma consciência que não têm e que desdenham pelo escárnio da sua soberba. Em cada olhar sempre um novo escondido desejo; em cada sorriso sempre uma nova profícua vontade
e, em cada mais profundo inspirar, um tanto maior e velho refalsado bater de
asas. Ao redor de relances, sucessivos rostos erguidos por velhos troncos de ramos e folhas onde, em todo o galho, ambições dormitam num vazio de espera, aguardando, dormentes, pela
oportunidade que nunca apareceu mas que uma teimosa esperança folga reencontrar.
Neste trampolim de egos que me envolve e circunda, o pardal continua o seu canto com melodias de sol e primavera, aconchegando-me com um calor natural que me sossega e envolve num genuino manto de vida. Apodero-me então de uma resignada conformidade no estar, um sentimento de perda e abandono de futuro, onde só o agora deste canto me fala do único mundo em que quero entrar, o único onde sonhos e fantasias crescem de mãos-dadas.
