sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Quadragésimo quarto: À parte.

Dei por mim sentada num sítio de algures, num banco de ninguém, tropeçando em porquês e comos no caos da desordeira trovoada de pensamentos que me alvoravam à alma a apatia e prostração da minha comunicação com o redor. Dificuldade tanta em compreender seja o que for…
Do pano azul e estrelícial desse céu de sonhos, chegava-me um canto de pardais; uma melodia reguila de inquietações, transpirando uma felicidade e acalmia que só num ambiente primaveril nos é permitido saborear. Nos enlaces orquestrais do seu canto, as notícias de um mundo em movimento, de uma civilização denunciada em recortantes diálogos de perturbados transeuntes, bêbados de circunspecções, pródigos no encanto próprio de cada um e hipocritamente amarrados a uma consciência que não têm e que desdenham pelo escárnio da sua soberba. Em cada olhar sempre um novo escondido desejo; em cada sorriso sempre uma nova profícua vontade e, em cada mais profundo inspirar, um tanto maior e velho refalsado bater de asas. Ao redor de relances, sucessivos rostos erguidos por velhos troncos de ramos e folhas onde, em todo o galho, ambições dormitam num vazio de espera, aguardando, dormentes, pela oportunidade que nunca apareceu mas que uma teimosa esperança folga reencontrar.

Neste trampolim de egos que me envolve e circunda, o pardal continua o seu canto com melodias de sol e primavera, aconchegando-me com um calor natural que me sossega e envolve num genuino manto de vida. Apodero-me então de uma resignada conformidade no estar, um sentimento de perda e abandono de futuro, onde só o agora deste canto me fala do único mundo em que quero entrar, o único onde sonhos e fantasias crescem de mãos-dadas.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Quadragésimo terceiro: Em frente.


Desfloraste-te de medos e receios. O horizonte imundo de improfícuas incertezas, antigo monstro de gigantes sombras que te afogava entre hesitações e incongruências constantes, tornou-se, finalmente, desabrochada flor com fragrâncias de vida e liberdade. O manto pantanoso de dúvidas que tantas vezes te cobriu o rosto caiu-te, por fim, deixando a descoberto o jubiloso sorriso de quem sabe agora querer e acreditar. Não mais erguidos fortes se levantarão adiante de quem se recusa sossegar-se com quimeras alheias. Opaca a visão daquele que não consegue ver para além da sua própria verdade. Cegos os que se recusam a ver senão as certezas de outrem que não as da consciência própria. Robusta cada certeza, renascida qualquer esperança. 

Quadragésimo segundo: "Vinte dias sem o amor"

Foi no meio de lágrimas de antecipada saudade que a viu partir. Consumiu o vazio que o acompanhava e, simultaneamente, deixou-se consumir por ele numa gula partilhada a dois, tão sádica, voraz e inóspita que só satisfeita, só saciável nas recordações felizes que dela guardou.

E então o silêncio, monstro que lhe sugou dos ouvidos as gargalhadas idas; e então o breu, cegueira que lhe tardou o vislumbre de novas auroras e esperanças; e então o medo, sombra perene que lhe roubara dos lábios o riso meigo e do rosto a alegria do deslumbramento.  Apenas as lágrimas e a solidão ficaram; apenas elas lhe acudiram o vazio e o envolveram num ermo de serenidade e paz, coroado pelas memórias de um passado cuja intensidade persistirá desarmar o poder do tempo, o desgaste da distância e a possessiva firmeza do esquecimento.  Racionalizou o consolo e a dor mas a saudade ficou. Junta, uma ténue imagem que dela guarda. E ainda que desvanecida, castigada ou desbotada por quantas as lágrimas que já por ela deixou correr, continua a ser na escuridão e no silêncio das suas fechadas pálpebras que devolve a nitidez e cor ao rosto que sempre recordou, ao retrato que anseia redescobrir a olhar o seu, algures num tempo que foi e que voltará a ser. Nesta dormência, foi percebendo que já nada mais havia ou importava no estar; a sua vida tornara-se um pêndulo suspenso entre a mais bonita recordação e o mais desejado sonho, um espectro só alimentado de passado e de futuro. O presente bastava-se num sopro contido, num relógio parado, num hiato de espera. Alimentou-se de saudade mas era a fome e a sede de um só abraço que procurava e sabia não poder ter. Restaram-lhe os ténis que pisou, as canções que lhe tocaram, restaram-lhe as danças, o fado, o manjerico, o Cais do Sodré, restaram-lhe os cozinhados, os chocolates, os livros e os cremes, restaram-lhe os filmes que viu e os que nem acabou de ver, restaram-lhe os bancos do Tejo, da cantina, dos miradouros e da Graça, restaram-lhe os almoços e o comboio, os cochilos na fundação, o bolo no Chiado e o china de Entrecampos, restou-lhe o seu cabelo desarrumado, restaram-lhe as mordidas...

Só quando cai a noite e procura o sono na almofada, reconhece a estrela que teima bater à sua janela e sente, então, que algo mais lhe restou, que algo mais ficou... uma genuína esperança e mais um fado no fado.