segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Trigésimo novo: Diferenças.


Foste-te embora. Foste-te embora sem nunca teres tentado. Abandonaste a tentativa no preciso momento em que eu a alimentava. E fizeste-o sem sequer ter sido eu a expulsar-te, como me é tão habitual. Porquê? Não o atribuas à impossibilidade das banalidades; como se o mais sincero dos sentimentos só pudesse brotar entre duas almas gémeas, como se essa avalanche de rodopios frenéticos dos apaixonados só se pudesse apoderar dos mais belos corpos celestes; como se as borboletas não me explodissem já das órbitas com tão frenético bater de asas nesses olhares cruzados, relanceados, difusos, profundos, ternos e cegos que trocávamos; como se o teu riso embrulhado no meu e as tuas palavras dissimulando-se nas minhas, ambas tímidas e claramente falsas, não fossem fórmula bastante para denunciar intenções reais. Não culpes os ideais estéticos ou as ambições antagónicas; nem tão pouco culpes um qualquer pedestal onde me colocaste pois, se isso aconteceu,  foi porque tu me puseste lá, não eu. Não te desculpes, por fim, com falta de auto-estima, consideração ou valor; pelo menos para ela o argumento não valeu. Culpa-te a ti; a ti e à tua falta de coragem; a ti e à tua timidez que só funciona para xizes mas já não para ipsilons; culpa-te a ti por não saberes a linguagem dos sentidos, por não saberes decifrar sinais. Culpa-te só a ti...