Hoje apeteceu-me Dali e Kush, hoje apeteceu-me Frida.
Eram já nove e breu; nove nêsperas numa nona nuvem naufragada. Espreito a rua, olho o céu em vertiginosa tentação de ver em virgem sonho reis e fadas, fantasias e quimeras. Chovem lágrimas amarelas de um luzido refrescante naquele palco de estrelas ludibriadas: cenário de abelhas poetas, de elefantes bailarinos, de besouros pintores; ali, embebidos por elas: frescas gotas, agora rosas, de um rosa vermelho que logo virou roxo, de um roxo púrpura que logo virou azul! Ai azul... azul do céu, azul das rosas, azul da noiva e do noivo, azul de coca-cola e de amor, azul da bandeira nacional e do hino, azul do sol e da cor das minhas unhas! Gosto do sentir da beatitude de Alice. Insta-me o coração para um mergulho rebelde naquela longa lezíria além, verde, campestre, esbelta nas suas rugas traçando ondulante solo (também) azul, com maré vaza e ar salgado. Molho o pé descalço sentindo a palpitação do meu relógio colidir com o assobio da onda rebelde. Sem pudor me dispo: pouso a vergonha no microondas e mando com a avareza para a primeira prateleira do frigorífico, descalço das mãos o orgulho e dos pés o egoísmo e atiro-os para a máquina de lavar... já posso correr nua pelos jardins do Éden, estou mais leve. Pego na vespa à esquina do talho da vila que tanto me enamorava com a sua lustrosa graça desde os 16, e monto-a em cima de mim, levando-a deleitada nos meus 8km/h, sem que soçobrando na hesitação, logo me lançasse naquele suculento e ruidoso batido de banana. Cheiro o perfume amorangado das azedas que colho no caminho provando, de seguida, pelo pé suado e descalço, a sua seiva caramelizada com um leve toque de framboesa e um cheirinho a rosmaninho. Olho os vestidos carmesim das vaidosas camélias que se empoleiram ao vento lá em suas varandas rasas esperando passar paixões, Digo-lhes para que também se dispam, mas não o querem... Prossigo a jornada, hei-de lá chegar! Sucumbo ao êxtase de balouçar numa espiga perdida e ao entusiasmo de me dela soltar no cume da subida. Sou criança, volto para o escorrega donde me gritam arrogantes búzios com jactos de tinta no céu, cuspindo-os como quem chupa beijos ou como cospe a fotografia angústia ou a música lágrimas.
Cospe, chup... hmm mexilhão com salsa sob uma aura de limão e chá; apetite de morte que me morde as costas! Fome de nada...
Take care,
Maria Rebelo