Já pensaste? já reflectiste? já alguma vez paraste para imaginar como seria se tudo aquilo para que olhas fosse igual a tudo aquilo que és?
Eu já: eu já vi essa mulher que ouve musica clássica todos os dias às 8h30 da manhã no comboio desprezando todos os outros que pensa já conhecer tantas vezes os viu, mas que permanecem incógnitas que não deseja conhecer; eu já vi essa criança a mascar pastilhas de canela enquanto vislumbra mulher casada, pelas vestes humilde, que provavelmente nunca teve um mesmo carinho materno que esta para lhe ensinar que não devia mascar a sua de boca aberta. Pobre coitada, nem sabes quantas as injúrias deambulantes que contra ti são dirigidas e que te rodeiam nesse mesmo momento em que refugias o teu pensamento fugidio nesse jornal que lês!
Eu já conheci essa gente que se reencosta na poltrona velha de camurça, deliciando-se com historias do passado: reis, batalhas, vitórias! Eu já falei com aquele rapaz que gosta de ouvir do seu antigo e frágil gira-discos que tem no quarto, a vivalma que brota de uns caixotes gastos dos quais foge, arranhada, para o levar com ela de volta aos anos 70! Também eu já vi por essa província seca sevilhana indivíduos pomposamente arranjados por vestes coloridamente alegres a desafiar aquele outro porte seguro e confiante, de pêlo brilhante e elegância animal!
Sim, eu já vi por essasruas que corro, esquinas e becos, jovens que conhecem e devoram o amor pela primeira vez sussurrando no ouvido desse alguém especial, com aquela timidez atrevida de que ousa a paixão, deixando-lhe um arrepio agradável para despedida, que lhe escorre pelo pescoço e lhe pede por mais! que sente aquela mão larga e grossa do amado, apertando-lhe a silhueta da nuca contra os seus volumosos lábios, molhados pelo desejo, afogando-lhe a alma!
E mal me sento na calçada lisboeta do Chiado para verem deambulados esses corpos desconhecidos perdidos nos seus destinos anónimos e autómatos, outros tantos se sentam comigo a meu lado e tudo estagna, e já nada resta para observar! Como eu os conheço!
Quantas vezes já fui eu, léguas percorridas, mapas traçados, braços dados com mulheres e homens morenos-altos-pele macia-calçado 40-tennis All star-calorentos no Verão e friorentos no Inverno, por essa terra fora! Visitando Londres, Amesterdão, Praga, Paris, Praia, Ceuta. Ainda o rochoso Olimpo, agora em feia pedra, que desceu ao Mundo só para por mim ser visto, e conhecendo aí, qual dádiva divina, amor louco de Verão: juras e promessas feitas... ah, tudo levado pelo vento!
Quantas vezes olhei já eu por janela já baça pela respiração, para outras tantas donde igualmente perscrutavam, atentos e empolgantes esses famintos olhos, radiantes pela fantástica tela nocturna de uma noite de trovoada! Quantas, quantas foram as vezes que andei calçada dentro, cobrindo-me de lágrimas dos céus, e constatei que rua fora, pessoa alguma me contrariava: erguiam suas cabeças e sentiam-nas na face já molhada, saboreando-as como elas nunca antes lhes souberam quando as bebiam dum copo!
Como seria se todos vós gostásseis tanto do Castelo de São Jorge quanto eu? Oh provavelmente jamais poderia visitá-lo ao pôr-do-sol quando vivalma desaparece deixando apenas sozinhos os velhos moradores e os namorados apaixonados! E então aí já não poderia cheirar esse perfume ameno e afrodisíaco tão naturalmente característico de suas sábias árvores.
E se toda essa gente que me cerca gostasse tanto de receber carinhosas festas atrás das orelhas como eu? quem as faria? E se tu gostasses da mesma forma que eu gosto dos eléctricos amarelos da Graça? o que acontecia ao autocarro?
Sei quem sou, sei do que gosto e do que não gosto! Mas sei que se te pedisse para que fosses igual a mim, perder-nos-íamos ambos nessa imensidão universal de equilíbrio perpetuamente constante e monótono que nos uniria! Desgastante cansaço! Quero aceitar-te pelas reles e mesquinhas coisas que gostas; quero gritar golo e ver a tua cara de frustrado e de incompreendido; quero apenas fechar a porta para não ouvir a música que gostas; quero fazer os penosos sacrifícios de acompanhar-te ao restaurante de comida japonesa que odeio ou ao filme de comédia que estreou; e quero fazer isso tudo com um sorriso na cara, porque aceito-te nessa tua faceta singularmente única e genuína: a Ti...
Take care,
Maria Rebelo*