sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O sexto: "Diferença"

Ando cansada!
Vejo-me pária na sociedade em que vivo. Relambório marginalismo a cada esquina. Gesticula-se essa vivalma citadina num palavreado que não entendo. Oh, pejada analfabeta quem sou.
Porque não a ouviste quando ontem te pediu que não falhasses? Decidiste fazer-te molúria rejeitando o metafísico prefácio imperial proeminentemente fixado bem alto na azul abóbada celeste.
A fundura duradoira das tuas virtuosidades prolixas, como que insuficientemente tomadas tornam-se, sem mais, amanhã hauríveis. E ainda que graciosamente as oferecesses, por toda essa ambição que guardas ao peito, tornas-te prófuga, errante numa sociedade bêbada por uma gnómica sentença de perfeição.
Mas porque queres tu desjungir-te dela? Porque tornas os pruridos teus, pretensões cobiçadas pelos demais? Porquê, quando em redor os vês numa felicidade flórea, na sua invicta juventa, facilmente ultrapassando os ínvios obstáculos, esputando palavrões sarcásticos e assim elevando-se a profetas, enquanto tu sofres e contestas tudo o que vês? Não, tu não és igual a eles. Não queres ser.
Vês-te assim malograda. Clangoras o êxito das tuas acções… amanhã na lama, pejo teu. Vê-los incólumes enquanto te tomam por malquista, qual cirro coalescente entranhado nessa maloca sociedade. Incomensuravelmente te julgam trejeiteando epifanias mórbidas sem que te deixem erguer a tua cetra Lusitana, sem que te deixem sobreviver.

Esquece-os! Não mais te desiludas. Segue a eosina substância ofuscante que se levanta à proa dessa caravela graciosamente à deriva em flume verde. E então aí encontra a hiulca entrança para o teu caminho.

Take care,
Maria Rebelo

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O quinto: "Maria Fernanda Tomaz"

Hoje foi dos poucos dias que tive a graciosa oportunidade de me deleitar junto da minha avó:
Dócil ingenuidade a tua!

A pureza do teu espírito, tão singelo, tão apaixonante leva-te a gravitares sobre esses pensamentos só teus. Atropelam-se-te aos milhares, sorumbáticos, que te impelem de enxergares a alegria que outrora já experimentaste. Não, crês que tudo isso é improfícuo, o que já viveste vivido está, passado cuja ressurreição e revivescência é esforço desmesurado, objectivo vago, de quezilento desvalor . E é nesta melancólica vida em que te tomas por protagonista, que submissa e imponentemente, aceitas o amanhã ricamente farto em novas amarguras.
Tanta a tristeza que transparece do teu olhar. Suavemente principia a escorrer no canto do teu olho parco e cansado, uma atrevida lágrima que espreita a tua rosada face já profundamente enrugada pela velhice. Afago-ta, hesitante. Vivo o teu sofrimento, a tua lúgubre vontade de viver, a obscuridão que te enterra no fatigante cansaço que jamais te libertará.
Ver-te assim, abatida, desarmada, derrotada, rendida perante a fugaz vida que te passou diante os olhos, enche-me o peito de mágoa!
Não tenho forças para enfrentar o teu olhar saudoso, angústia tanta! pois relanço-me para as tuas canículas mãos, as quais agarro, trenurosamente. Ah, quão meigos são delicados dedos teus, quão levemente branda e suave é a doçura da tua pele sénil. Procuro render-me ao teu abraço terno, mas os teus braços magros esfaldados e de desaza fraqueza mal me conseguem prender.
Eis então, se não que, esboças um sorriso frugal: falas do "gordo" da RTP, do maldito sono traidor que te atraiçoa na predilecta hora das telenovelas, na moça que foi ontem capa na Lux, nas memórias enclausuradas nesse relógio imperial sandeu que teme não mais parar, e regressas à saudade perdida no passado, deixada a braços do neto que amavas e que perdeste... ciclo volvido, retomas ao cânone da inútil existência vã que a tua amena temperança não consegue iludir: a solidão!

Derriças-te contra o cordão que te pesa as costas e te empurra diariamente para o abismo. A custo tomas-te por independente. Todos aspiram ao sucesso, à ganância, à sumptuosidade da vida... (caricato) tu apenas pedes mais 'movimento na rua' e nas 'escadas do prédio'.

Take care,
Maria Rebelo*

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O quarto: "Portugal com 'P' "

Cercam-te! Rodeiam-te indivíduos socialmente confundidos como bárbaros de espécie cruel, paulatinamente chicoteados na pele, no peito, na sombra, na alma... por ti!

Julgas-te nesse teu egoísmo egocêntrico, detentor de sabedoria inigualável, respeito próprio! A tua decisão individualmente unânime crê-te que sim: que o que tu pensas é o que todos pensam, assim dotando-te de uma falsa força inexistente, que é tão-só a que te imputa confiança, crença oportunista, dessa tua próxima conduta desgraçada.
Quanto o pudor que repele do teu pesado olhar! Quantas as injúrias, as opulentes críticas que permanentemente te bombeiam a mente! Apagaste-a de compaixão, de benignidade, de clemência, de bondade e de amor! Perdes-te no roteiro que traçaste no passado... queres acreditar em ti, na tua triste imoralidade sempre que olhas para o espelho e só vês reflexo de um cobarde que se esconde por trás de idolatrias nacionalistas carecidas de fundamento humano. Mas não: de ti só vês a clorófica seiva sanguínea que te empalidece a pele. Os teus olhos pobres não conseguem ir além desses outros que te olham do mesmo reflexo. Quiseste vedar a tua mente à virtuosidade da partilha: contigo hoje, com os que ontem te amaram, com aqueles a que tu amanhã chamas de monstros (sim, porque até esses tinham algo para te dar).
Opróbrio factum os que esperas do amanhã. Progressivamente conseguiste afastar os que ainda aspiravam à réstia de bondade (já morta há muito) no fosso tépido entranhado no teu coração. Trocaste-os pelo nada que assombra a humanidade, por esse vexame que teme em perdurar à sua sombra: o lado negro da consciência que séculos sacrificados de história juraram enterrar e que tu decidiste, sem mais, levantar. Fá-lo como um herói, vês-te benemérito, benfeitor, ser escondido ressurrecto agora, julgando profetizar algo que jamais o fora. Crês numa arte errónea que faz de ti falso intérprete da ignomínia lei beneplácita a que tu chamas justiça. Pequeno sejas...

Palavras pronunciadas pelo poeta irmão.

Take care,
Maria Rebelo

sábado, 15 de novembro de 2008

O terceiro: "O 'eu' que espero de ti"

Já pensaste? já reflectiste? já alguma vez paraste para imaginar como seria se tudo aquilo para que olhas fosse igual a tudo aquilo que és?

Eu já: eu já vi essa mulher que ouve musica clássica todos os dias às 8h30 da manhã no comboio desprezando todos os outros que pensa já conhecer tantas vezes os viu, mas que permanecem incógnitas que não deseja conhecer; eu já vi essa criança a mascar pastilhas de canela enquanto vislumbra mulher casada, pelas vestes humilde, que provavelmente nunca teve um mesmo carinho materno que esta para lhe ensinar que não devia mascar a sua de boca aberta. Pobre coitada, nem sabes quantas as injúrias deambulantes que contra ti são dirigidas e que te rodeiam nesse mesmo momento em que refugias o teu pensamento fugidio nesse jornal que lês!
Eu já conheci essa gente que se reencosta na poltrona velha de camurça, deliciando-se com historias do passado: reis, batalhas, vitórias! Eu já falei com aquele rapaz que gosta de ouvir do seu antigo e frágil gira-discos que tem no quarto, a vivalma que brota de uns caixotes gastos dos quais foge, arranhada, para o levar com ela de volta aos anos 70! Também eu já vi por essa província seca sevilhana indivíduos pomposamente arranjados por vestes coloridamente alegres a desafiar aquele outro porte seguro e confiante, de pêlo brilhante e elegância animal!
Sim, eu já vi por essasruas que corro, esquinas e becos, jovens que conhecem e devoram o amor pela primeira vez sussurrando no ouvido desse alguém especial, com aquela timidez atrevida de que ousa a paixão, deixando-lhe um arrepio agradável para despedida, que lhe escorre pelo pescoço e lhe pede por mais! que sente aquela mão larga e grossa do amado, apertando-lhe a silhueta da nuca contra os seus volumosos lábios, molhados pelo desejo, afogando-lhe a alma!
E mal me sento na calçada lisboeta do Chiado para verem deambulados esses corpos desconhecidos perdidos nos seus destinos anónimos e autómatos, outros tantos se sentam comigo a meu lado e tudo estagna, e já nada resta para observar! Como eu os conheço!
Quantas vezes já fui eu, léguas percorridas, mapas traçados, braços dados com mulheres e homens morenos-altos-pele macia-calçado 40-tennis All star-calorentos no Verão e friorentos no Inverno, por essa terra fora! Visitando Londres, Amesterdão, Praga, Paris, Praia, Ceuta. Ainda o rochoso Olimpo, agora em feia pedra, que desceu ao Mundo só para por mim ser visto, e conhecendo aí, qual dádiva divina, amor louco de Verão: juras e promessas feitas... ah, tudo levado pelo vento!
Quantas vezes olhei já eu por janela já baça pela respiração, para outras tantas donde igualmente perscrutavam, atentos e empolgantes esses famintos olhos, radiantes pela fantástica tela nocturna de uma noite de trovoada! Quantas, quantas foram as vezes que andei calçada dentro, cobrindo-me de lágrimas dos céus, e constatei que rua fora, pessoa alguma me contrariava: erguiam suas cabeças e sentiam-nas na face já molhada, saboreando-as como elas nunca antes lhes souberam quando as bebiam dum copo!
Como seria se todos vós gostásseis tanto do Castelo de São Jorge quanto eu? Oh provavelmente jamais poderia visitá-lo ao pôr-do-sol quando vivalma desaparece deixando apenas sozinhos os velhos moradores e os namorados apaixonados! E então aí já não poderia cheirar esse perfume ameno e afrodisíaco tão naturalmente característico de suas sábias árvores.
E se toda essa gente que me cerca gostasse tanto de receber carinhosas festas atrás das orelhas como eu? quem as faria? E se tu gostasses da mesma forma que eu gosto dos eléctricos amarelos da Graça? o que acontecia ao autocarro?

Sei quem sou, sei do que gosto e do que não gosto! Mas sei que se te pedisse para que fosses igual a mim, perder-nos-íamos ambos nessa imensidão universal de equilíbrio perpetuamente constante e monótono que nos uniria! Desgastante cansaço! Quero aceitar-te pelas reles e mesquinhas coisas que gostas; quero gritar golo e ver a tua cara de frustrado e de incompreendido; quero apenas fechar a porta para não ouvir a música que gostas; quero fazer os penosos sacrifícios de acompanhar-te ao restaurante de comida japonesa que odeio ou ao filme de comédia que estreou; e quero fazer isso tudo com um sorriso na cara, porque aceito-te nessa tua faceta singularmente única e genuína: a Ti...

Take care,
Maria Rebelo*

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O segundo: "O feio"

Olho em redor e vejo. Procuro por essa multidão floreada a fugaz verdade que saceie os meus olhos fatigados. Mas a verdade não a encontram eles, tão densa é essa carapaça de forças das finas fibras epidérmicas que resistem ao penetrar de um olhar vadio e imberbe. Inocência? Ingenuidade? Destes não careço eu, sei bem. Por eles foco frustradamente toda uma mentira na verdade, todo o feio no belo! Porquê? Quero ver o belo!

Tentadora maldição a que se apodera dessa multidão e que inelutavelmente a faz sofrer rogando-lhe injúrias fantasticamente tentadoras: do esbelto cabelo que atraiçoado por tempestades divinas lhe revelam a feição frágil; do opolente sorriso faustoso, feliz agora pela virgindade, frustrado depois pelo desgaste fatal; da promiscuidade da fona mulher e homem que procuram na frequente satisfação sexual do corpo fedorento uma felicidade fútil e fugaz; da riqueza, resultado acessível apenas aos frustrados cuja infância fantasma junto dos amigos "borracha" ou de uma família que freneticamente já lhe planeavam todo o futuro famoso desde o berço: o filho dos olhinhos d'oiro que jamais poderia falhar; da bondade, per si um fim, figura fulminante que todavia, na fronteira entre o que é e o que devia ser, faísca feita, finda em falácia verdadeira, falso flaureado social, fumo negro o que veda essa fiel virtude...
ó sociedade quem és tu que preferes a fremência da fórmula da vida, fissurando-lhe as raízes, desabando-lhe o fértil solo, desprovendo-a do seu maior fenómeno, que é tão-só ela própria: a sua fervorosa existência, farpa alguma em corpo meu, ou nosso; qual futre real urgindo ser fenómeno, apelando ao seu aproveitamento fanático pela fácil missão de apenas a tomar, recebê-la como dádiva que repugna o fingimento!

fénix vem, volta, vislumbra-os!

Take care,
Maria Rebelo

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O primeiro: "O falso"

Que importa o que ouço. O que ouvem. O que dizem deste ou daquele ou de mim. Prepositadamente falam. Do que sabem, do que não sabem. Sentido? Sim, talvez, Não.


Se do primeiro, assim é wrongtruth life of them. Porque se a existir, esse não é fidedigno. Impressionantes, exibitórias, adulteradas, subalternizadas, essas personalidades que se despem para mim desses outros. Da sua real justificação, irreal se justifica. É pobre. É fútil. É mesquinha. É o tudo das pessoas "pequeninas" e da sua insignificante consciência que a mais não ambiciona.
Se do segundo, dúvida. Conceito ridículo. O tudo não depende de algo intermédio entre uma existência vã e uma inexistência vazia. Não. Algo é breu! Talvez é um nada! Tudo é um sim ou um não!


Não! Ei-lo perante nós. Palavras para o justificar? Para quê? Justificados já se apresentam os restantes pelo que neste é da ilacção que se extrai a razão, deixando-me no ócio de dar por terminado esta coisa a que alguém, infeliz do coitado, decidiu chamar, numa reles adaptação ao inglês ("post"), de "postagem".

Take care,
Maria Rebelo