domingo, 28 de abril de 2013

Quadragésimo primeiro: Um certo tipo de dança.


Relembro, volvidos meses, o rítmico batimento do meu coração rendido ao melodioso encaixe que brotava do simples encontro de duas mãos apaixonadas. Relembro o constante deslumbramento perante a descoberta do mundo de composições que conseguíamos esculpir com elas e da feliz sensação de constatar que, a cada nova, a mesma harmonia teimava perdurar, que a perfeita comunhão entre as nossas duas mãos possuía um elo que as aglutinava invariavelmente, desmesuradamente, independentemente do espaço para onde fugissem os seus dedos...
 Relembro a forma como se afagavam mutuamente, num entrelaçado de dedos despidos de preconceito, ávidos pela eternidade, e onde ternos beijos lá iam, ocasionalmente, emoldurando o cenário. Lembro também os diferentes estilos com que os deixávamos a dançar; desde o foxtrote ao sapateado e do tango à valsa lenta, vimo-los tantas vezes mudarem a intensidade com que se faziam deslizar naquele palco de pele, percorrendo unhas, escalando dedos e planando na palma e costas de uma mão que sabiam um mundo por explorar.
Relembro a astúcia com que brincavam, com que nos provocávamos em lutas selváticas de polegares sequiosos por conquista, com que cada um de nós ansiava sempre vencer e contemplar a capitulação final do prisioneiro amado; e, só assim, porque sabíamos que não havia guerra sem paz, porque sabíamos que inevitáveis acabaríam sempre por ser os derradeiros tratados de paz, imperialmente selados, em jeito de tão cobiçável recompensa, por longos beijos ao assoberbado vencedor!

domingo, 14 de abril de 2013

Quadragésimo: Um canto.


Conhecemos poucos momentos em que a paz que se apodera de nós é, provavelmente, ainda maior do que a consciência que temos dela.  Um café à beira-mar, uma viagem no cacilheiro a cruzar o Tejo ou mesmo Eça nos jardins da Gulbenkian, trazem muitas vezes lufadas perfumadas desse silêncio querido, um golo do suave tónico que logo nos ruboresce a palidez da alma e assim nos afoga numa maresia de serenidade e quietação. O pensamento desfalece-me, cauteloso e, com ele, toda a razão. Observo-a, desvanece-se numa dança desassossegada de cabelos que, desalinhadamente, me vão esculpindo o rosto ao som de uma melodiosa brisa confortante, majestosamente conduzida pela batuta ritmada do tumultuoso ranger do mar. Paulatinamente perco do chão a sua noção de peso, volume e espaço e, com ele, perdem-se também os suspiros das constantes lamúrias e caprichos nos meus ouvidos, ficando apenas, florescendo no despojado vazio, o jubiloso canto de uma cotovia.