Conhecemos poucos
momentos em que a paz que se apodera de nós é, provavelmente, ainda maior do
que a consciência que temos dela.
Um café à beira-mar, uma viagem no cacilheiro a cruzar o Tejo ou mesmo
Eça nos jardins da Gulbenkian, trazem muitas vezes lufadas perfumadas desse
silêncio querido, um golo do suave tónico que logo nos ruboresce a palidez da
alma e assim nos afoga numa maresia de serenidade e quietação. O pensamento
desfalece-me, cauteloso e, com ele, toda a razão. Observo-a, desvanece-se numa
dança desassossegada de cabelos que, desalinhadamente, me vão esculpindo o
rosto ao som de uma melodiosa brisa confortante, majestosamente conduzida pela
batuta ritmada do tumultuoso ranger do mar. Paulatinamente perco do chão a sua noção
de peso, volume e espaço e, com ele, perdem-se também os suspiros das
constantes lamúrias e caprichos nos meus ouvidos, ficando apenas, florescendo no
despojado vazio, o jubiloso canto de uma cotovia.
domingo, 14 de abril de 2013
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