domingo, 14 de abril de 2013

Quadragésimo: Um canto.


Conhecemos poucos momentos em que a paz que se apodera de nós é, provavelmente, ainda maior do que a consciência que temos dela.  Um café à beira-mar, uma viagem no cacilheiro a cruzar o Tejo ou mesmo Eça nos jardins da Gulbenkian, trazem muitas vezes lufadas perfumadas desse silêncio querido, um golo do suave tónico que logo nos ruboresce a palidez da alma e assim nos afoga numa maresia de serenidade e quietação. O pensamento desfalece-me, cauteloso e, com ele, toda a razão. Observo-a, desvanece-se numa dança desassossegada de cabelos que, desalinhadamente, me vão esculpindo o rosto ao som de uma melodiosa brisa confortante, majestosamente conduzida pela batuta ritmada do tumultuoso ranger do mar. Paulatinamente perco do chão a sua noção de peso, volume e espaço e, com ele, perdem-se também os suspiros das constantes lamúrias e caprichos nos meus ouvidos, ficando apenas, florescendo no despojado vazio, o jubiloso canto de uma cotovia. 

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