Relembro, volvidos meses, o rítmico batimento do meu coração rendido ao
melodioso encaixe que brotava do simples encontro de duas mãos apaixonadas.
Relembro o constante deslumbramento perante a descoberta do mundo de composições
que conseguíamos esculpir com elas e da feliz sensação de constatar que, a cada
nova, a mesma harmonia teimava perdurar, que a perfeita comunhão entre as
nossas duas mãos possuía um elo que as aglutinava invariavelmente,
desmesuradamente, independentemente do espaço para onde fugissem os seus
dedos...
Relembro a forma como se afagavam
mutuamente, num entrelaçado de dedos despidos de preconceito, ávidos pela
eternidade, e onde ternos beijos lá iam, ocasionalmente, emoldurando o cenário.
Lembro também os diferentes estilos com que os deixávamos a dançar; desde o
foxtrote ao sapateado e do tango à valsa lenta, vimo-los tantas vezes mudarem
a intensidade com que se faziam deslizar naquele palco de pele, percorrendo unhas,
escalando dedos e planando na palma e costas de uma mão que sabiam um mundo por
explorar.
Relembro a astúcia com que brincavam, com que nos provocávamos em lutas
selváticas de polegares sequiosos por conquista, com que cada um de nós ansiava
sempre vencer e contemplar a capitulação final do prisioneiro amado; e, só assim,
porque sabíamos que não havia guerra sem paz, porque sabíamos que inevitáveis acabaríam sempre por ser os derradeiros tratados de paz, imperialmente selados, em jeito de tão cobiçável recompensa, por longos beijos ao assoberbado
vencedor!

Um comentário:
Imaginação fértil! Só? Inspiração súbita ou ...
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