quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Quadragésimo segundo: "Vinte dias sem o amor"

Foi no meio de lágrimas de antecipada saudade que a viu partir. Consumiu o vazio que o acompanhava e, simultaneamente, deixou-se consumir por ele numa gula partilhada a dois, tão sádica, voraz e inóspita que só satisfeita, só saciável nas recordações felizes que dela guardou.

E então o silêncio, monstro que lhe sugou dos ouvidos as gargalhadas idas; e então o breu, cegueira que lhe tardou o vislumbre de novas auroras e esperanças; e então o medo, sombra perene que lhe roubara dos lábios o riso meigo e do rosto a alegria do deslumbramento.  Apenas as lágrimas e a solidão ficaram; apenas elas lhe acudiram o vazio e o envolveram num ermo de serenidade e paz, coroado pelas memórias de um passado cuja intensidade persistirá desarmar o poder do tempo, o desgaste da distância e a possessiva firmeza do esquecimento.  Racionalizou o consolo e a dor mas a saudade ficou. Junta, uma ténue imagem que dela guarda. E ainda que desvanecida, castigada ou desbotada por quantas as lágrimas que já por ela deixou correr, continua a ser na escuridão e no silêncio das suas fechadas pálpebras que devolve a nitidez e cor ao rosto que sempre recordou, ao retrato que anseia redescobrir a olhar o seu, algures num tempo que foi e que voltará a ser. Nesta dormência, foi percebendo que já nada mais havia ou importava no estar; a sua vida tornara-se um pêndulo suspenso entre a mais bonita recordação e o mais desejado sonho, um espectro só alimentado de passado e de futuro. O presente bastava-se num sopro contido, num relógio parado, num hiato de espera. Alimentou-se de saudade mas era a fome e a sede de um só abraço que procurava e sabia não poder ter. Restaram-lhe os ténis que pisou, as canções que lhe tocaram, restaram-lhe as danças, o fado, o manjerico, o Cais do Sodré, restaram-lhe os cozinhados, os chocolates, os livros e os cremes, restaram-lhe os filmes que viu e os que nem acabou de ver, restaram-lhe os bancos do Tejo, da cantina, dos miradouros e da Graça, restaram-lhe os almoços e o comboio, os cochilos na fundação, o bolo no Chiado e o china de Entrecampos, restou-lhe o seu cabelo desarrumado, restaram-lhe as mordidas...

Só quando cai a noite e procura o sono na almofada, reconhece a estrela que teima bater à sua janela e sente, então, que algo mais lhe restou, que algo mais ficou... uma genuína esperança e mais um fado no fado.

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