Foi no meio de
lágrimas de antecipada saudade que a viu partir. Consumiu o vazio que o acompanhava e,
simultaneamente, deixou-se consumir por ele numa gula partilhada a dois, tão
sádica, voraz e inóspita que só satisfeita, só saciável nas recordações felizes que dela guardou.
E então o silêncio,
monstro que lhe sugou dos ouvidos as gargalhadas idas; e então o breu, cegueira
que lhe tardou o vislumbre de novas auroras e esperanças; e então o
medo, sombra perene que lhe roubara dos lábios o riso meigo e do rosto a
alegria do deslumbramento. Apenas as
lágrimas e a solidão ficaram; apenas elas lhe acudiram o vazio e o envolveram num
ermo de serenidade e paz, coroado pelas memórias de um passado cuja intensidade persistirá desarmar o poder do tempo, o desgaste da distância e a possessiva firmeza do esquecimento. Racionalizou o consolo e a dor mas a saudade ficou. Junta, uma ténue
imagem que dela guarda. E ainda que desvanecida, castigada ou desbotada por quantas as lágrimas que já por ela deixou correr, continua a ser na escuridão e no silêncio das suas fechadas pálpebras que devolve a nitidez e cor ao rosto que sempre recordou, ao retrato que anseia redescobrir a olhar o seu, algures num tempo que foi e que voltará a
ser. Nesta dormência, foi percebendo que já nada mais havia ou importava no estar; a sua vida tornara-se um
pêndulo suspenso entre a mais bonita recordação e o mais desejado sonho, um
espectro só alimentado de passado e de futuro. O presente bastava-se num sopro
contido, num relógio parado, num hiato de espera. Alimentou-se de
saudade mas era a fome e a sede de um só abraço que procurava e sabia não poder ter. Restaram-lhe
os ténis que pisou, as canções que lhe tocaram, restaram-lhe as danças, o fado, o
manjerico, o Cais do Sodré, restaram-lhe os cozinhados, os chocolates, os livros
e os cremes, restaram-lhe os filmes que viu e os que nem acabou de ver, restaram-lhe
os bancos do Tejo, da cantina, dos miradouros e da Graça, restaram-lhe os
almoços e o comboio, os cochilos na fundação, o bolo no Chiado e o china de Entrecampos, restou-lhe
o seu cabelo desarrumado, restaram-lhe as mordidas...
Só quando cai a noite e procura o sono na almofada, reconhece a estrela que teima bater à sua janela e sente, então, que algo mais lhe restou, que algo mais ficou... uma genuína esperança e mais um fado no fado.

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