sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Trigésimo quinto: "Catarse"

Tenho um ódio especial por cobardes. Talvez porque eu mesma não me conformo com a resignação consoladora que um não-fazer traz.

Ah! como negar posso do conforto estável que um não-fazer me oferece? Não é ele afinal mais apelativo que o esforçoso passo em frente?, que a dolorosa e enferrujada iniciativa?, que o arranhado pronúncio da primeira sílaba? Quem será então esse cristo que tantas vezes alevanta aquela desarmante bandeira de coragem para nos fazer tremer a todos? Bandeira que dela muitos fazem almofada? Abjurei-me já dessa religião faz tempos. Fiz fé num cristo que usava da palavra e ousadia como criterioso mecanismo de retaliação social numa mistura embriónica que roçava o atrevimento, medido claro, pela anormal perspectiva que a sua autora fazia do ser e do estar. A presença de um eu teria de ter afinal uma transcendência simultaneamente voraz e aglutinadora, pensava, não só da sua como da personalidade do outro circundante, da esquina, do outro do café ao balcão e da fila para a casa-de-banho. SIM! Era desse conflito permanente, onde se imiscuiriam mutua e constantemente almas narcísicas, que brotaria a saciedade plena da insatisfação de toda e cada uma delas! Portas e janelas!, todas abertas!, desinibidas correntes de ar e saudosos arrepios qual catarse purificadora! Afinal de contas, pensava, que importavam as comiserações da timidez ou o tacanhismo que a distante polidez lustrava? Zero de garantias na felicidade de um. Não! Inibidas dissimulações à parte, o mundo pulava e avançaria num outro carrossel! A vida querer-se-ia cega de paixões rendidas a um ideal anárquico de regras e condicionismos, um livre-trânsito num hipódromo de sensações! Que era ela senão bruto baldio ansiosamente aguardando o despoletar de sol e chuva para neles germinar violetas flores?! Que importaria então o ócio da almofada, a segurança de um livro ou a timidez de um olhar? Tudo errado!: desconstruir e desarranjar seriam então as palavras de ordem! O desassossego imperaria sob a sua coroa para não mais parar: um eterno adeus à preguiçosa cobardia que nos consumia a felicidade, sanguessuga de imberbes vidas, injetando-nos uma constante esperança que, pujante, nos corria nas veias, e da qual fizemos alimento. Não era tarde demais!

3 comentários:

JoanaLobo disse...

que bom voltar a ler-te !!!

Maria Paulo Rebelo, disse...

Obrigada Joana. :). Tenho andado ausente.

Anônimo disse...

Tava a ver que tinhas esgotado o tinteiro. Ainda bem que encontraste novo tinteiro e que voltaste a encher a caneta. Essa caneta não pode - melhor - não deve parar de escrever. Mil beijos.