sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Trigésimo sétimo: "O silêncio da diferença"

Rendeu-se. Rendeu-se ao subterfúgio do saudosismo nos mergulhos que fez à caixa de cartão azul onde guarda as velhas memórias, talvez o único escape que lhe devolvia o sorriso aos lábios, talvez a única vacina donde injectava a verdejante adrenalina da juventude de outrora.

Hoje é esse vagabundo, de passos trocados por pensamentos inóspitos, de projectos deixados ao sabor de agrestes ventos e que humilhado se senta em bancos de jardim de uma só janela. Companheiro da solidão, é pungentemente atingido nos flancos pela velha e caprichosa dor que o rosado-creme da sua rugosa cicatriz não deixa esquecer. Vendeu-se no curral das promessas; venderam-lhe os sonhos de menino. Desta guerrilha ficou apenas a fadiga de um homem nu. Agora não tem alento, perdeu o fôlego que antes lhe sarava os traiçoeiros estilhaços do coração, os partidos vidros da sua alma ou a sua simples e triste linha da sina. Ombro onde descansar a cabeça conhece só o seu. Lenço onde enxugar o pranto das feridas de guerra só tem o que, com misericórdia e pena, lhe é oferecido por desconhecidos na rua. Mendigo de amor, arrasta-se sobremaneira num pesar moribundo de piedade e esperança. Talvez um dia seja à sua porta que bata a sorte. Até lá vai sucumbindo, resignado a uma dormência cabal de tal modo é sonâmbulo o caminhar dos seus passos, de tal maneira atropeladas são as palavras dos seus discursos. Mas continua. Ignora simplesmente os sintomas de esquizofrenia onde mergulhou faz tempos, provavelmente sem alguma vez ter-se disso dado conta. Já não se chama X. Baptizaram-lhe com outro nome, único pelo qual agora o conhecem. Provavelmente ainda se chamará X. mas também só ele o saberá. A verdade é que, para o M. que generosamente lhe oferece, da sua mercearia, o pequeno-almoço de todos os seus dias, para o F. que naquele momento descia a calçada e com ele se cruzou, ou para a P. que todos as manhãs observa da sua varanda aquele característico jeito de caminhar, ele passou, há muito, a ser apenas o “coitado, que é maluco”.

Um comentário:

Anônimo disse...

Gostei do que li.Até que pode ser a verdade que vive connosco por qualquer rua ou bairro de qualquer cidade. Ali em baixo. Ao pé de mim. Vejo-o da minha janela. Ele ali está. Coitado. É doido. Era um doido.