quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

O décimo primeiro: "Amanhã será Natal"

Noticia:
12h00 do dia 24 de Dezembro de 2008. Toca o telefone:

Arrastou-se, literalmente, pesado manto de tristeza pela família Rebelo: irmãos, tios, primos.
Porque deixaste correr tu esse maldito tempo idiota?, como é que ainda não foste capaz de enxergar, que deixá-lo correr joga sempre contra ti? Foram dias e meses de progressiva dor: primeiro as costas, depois os dois pulmões, agora os dois peitos: sinais na carne fraca, desfeita, meticulosamente marcada em negros pontos, dispersamente ligados por enfraquecidas sinapses que brevemente ditarão o teu futuro próximo.
Na silhueta curta da tua bacia negra transparece todas as cataclísmicas consequências dos teus actos desmedidos; no teu peito pinta-se o prazer-virado-ódio da devassidão que experimentaste em todos estes anos. Inconsequente te tornaste: preferiste não pesar, em iusta balança, as previsões irrisórias, utópicas, inimagináveis do vício que cegamente te iludia e que extasiadamente vivias, mas cujo esforço incomensurável por abandonar era tal que, dizias, não o merecia. Era tão bom não era?: a felicidade da nova passa dada no nojento cigarro poisando em lenta decomposição naquele cinzeiro tão velho como tu; o alívio com que satisfazias a paradigmática incompreensível necessidade que permanentemente te irrigava o cérebro mas que, anatomicamente, o teu corpo rejeitava com sorriso forçado e contraída careta; o prazer de o sugar num trago, senti-lo entranhar-se na garganta para depois voltar em arranhado remoinho para um estatutivo bafo que ditaria o seu desvanecimento.
Se te arrependes ou não, nada sei. Todavia é certeza, que a irresponsabilidade desmedida do teu prazer egoísta repercutir-se-á noutros que não tu: partirás para onde temes, mas que género de sofrimento será esse que te alivia a dor? Dizer-nos-ia Platão que a morte não traz medo, antes alívio, visto ser o sofrimento coisa terrena. Pois bem, na comparação entre os que cá ficam a chorar por ti com a tua irreversível viagem só de ida: quem é que se arrastará, dias sem fim, pelo depressivo pensamento de que agora tudo (ele) é irrelevante?, quem é que, em vão, conseguirá conter o impulso das pendulares lágrimas que temerão cair sempre quando, de relance, se cruzar contigo em estáticas fotografias e te recordar em melancólica vivescência?, quem é que conhecerá no corpo, o ardor do arfante peito incontrolavelmente domável pelo nervosismo do desespero de quem perdeu quem ama? Eles e não Tu!
Ainda assim (como?), depois de tudo dito, choro tanto por ti...

Pois bem, só para alguns será amanhã Natal...

Take care,
Maria Rebelo*

4 comentários:

P. disse...

como foi possível? inércia? medo? é-me tao dificil compreender.. partilho da tua tristeza maria

Unknown disse...

o fim nunca é fim em si... há sempre um novo inicio. os que ficam sofrem. há, porém, a felicidade do fim do sofrimento de quem gostamos... estarão sempre junto a nós numa nova etapa do seu ciclo. coragem...

PQ disse...

A morte é um passo curto no ciclo da vida, é o caminho necessário à renovação, é o modo que a natureza tem de nos dizer que todo o orgulho é vão e toda a tristeza é passageira. Uns morrem sem um ai, passaram pela vida sem que a vida passasse por eles, outros, os afortunados, viveram intensamente, provaram todos os prazeres, deram ao mundo o seu saber e pediram-lhe em troca êxtases sem fim. Prefiro os últimos, arriscaram sair da mediocridade, sendo certo que pagam sempre um preço por isso. Morremos porque o cigarro nos matou, morremos porque queríamos chegar rápido e a curva traiu-nos, morremos porque o corpo não aguenta mais aos noventa anos. Morremos sempre, por isso importa mais o como vivemos do que o como morremos. Eu tenho um secreto desejo, o de albergar em mim um átomo de carbono do filósofo ou um electrão de Galileu. Morrerei feliz se um dia,daqui a muitos, muitos anos, alguma parte de mim for parte de outro alguém que faça o mundo girar.

Unknown disse...

Maria,

compreendo a tua dor, a tua revolta... contudo, penso no outro lado! não teremos o direito em terminar este ciclo de uma forma só nossa? como podemos ser de tal forma altruistas em que até no fim temos que pensar nos outros? tudo´em nós é consequencia das nossas escolhas... ela fez as suas! não podemos julgar tais actos só porque nos fazem sofrer! ela percorreu a sua estrada, subiu e desceu os seus montes... chegou o momento de simplesmente se tornar eterna...