terça-feira, 1 de maio de 2012

Trigésimo oitavo: "Palavras?"


É cada vez mais sinuoso este caminho que faço. Da ideia que cresce viva por detrás do brilho do meu olhar, um turbulento número de incongruências separa-a do texto que ora escrevo, represtinada e lentamente, nas teclas deste computador. Por tudo isto fica a tentativa e, talvez, apenas ela. A concretização do abstracto pelo mito da linguagem acaba por se transformar, invariavelmente, neste poço cadavérico da tentativa. Fugaz. Inconsequente. Sou, resignadamente, uma cativa do número de palavras de um dicionário. Estas amarras silábicas prendem-me a uma impotência para captar a realidade sensível numa articulação frásica. A palavra deixou, há muito, de ser o veículo. Já nem conto as vezes em que volto atrás para compor o raciocínio, tantas são. No fundo, em mim, toda a ideia se perde. Nunca uma fuga de informação se viu tão desvirtuosamente perdida. A metafisica deixou de viver na cor das minhas letras.

4 comentários:

André disse...

Passei casualmente...e deparei-me com estas "Palavras". Há muito foi-me dito (estou em crer que por um falso mestre) que a palavra inicia e finda o todo. "Do verbo fez-se carne!", assim o escutamos e ouvimos cantar.
Acho que as palavras trazem essa metafísica de que falas, quando tal metafísica não nos é alheia. E a cor das palavras, essa, no entanto, é pintada pela própria metafísica, pelo que não esgota com o findo mas vai além do átomos que compõem as palavras. Assim somos nós...palavras que vão além de palavras, metafísicos no mundo paralelo que se estabelece entre o iniciar e o findar da palavra.
Como disse, passei casualmente no "materialismo" das palavras e pergunto-me, Perderam mesmo as tuas letras a cor da metafísica? Ou por estarem(es) na tormenta não vislumbram o raio luminoso que subtilmente existe entre elas e o "lado de lá"?
Se me permites, gosto deste teu espaço.

Maria Paulo Rebelo, disse...

Federico, bem-haja voltar a ver-te. Perdi-te depois de teres posto um fim ao teu antigo 1254(?)/1524(?) - desculpa não me recordar do número.

Oxalá fosse apenas da tormenta do dia de hoje ou do dia de ontem. É antes um arrastar continuo do cinzento num mundo sem contrastes. A palavra deixou, pura e simplesmente, de fazer sentido. Passar a escrito a ideia é cada vez mais um suicídio; escrever é morrer.

Vou voltar a seguir-te Federico mas, por favor, não voltes a matar os teus "espaços"; são demasiado caros ao património literário português ;)

André disse...

Obrigado pelo teu sempre gentil incentivo à minha (ultimamente)parca escrita. Mudei o nome do blogue, o endereço e também o meu nome (Continua a ser o mesmo Federico mas com uma forma diferente). O 1541 já não fazia muito sentido. Publiquei um texto a explicar isso. Espero que este novo "pseudo-projecto" funcione...

André disse...

Quanto ao nome, "Elo de Pador" (foi este que substituiu o 1541) tem também uma história que a seu tempo será contada...