segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O quinto: "Maria Fernanda Tomaz"

Hoje foi dos poucos dias que tive a graciosa oportunidade de me deleitar junto da minha avó:
Dócil ingenuidade a tua!

A pureza do teu espírito, tão singelo, tão apaixonante leva-te a gravitares sobre esses pensamentos só teus. Atropelam-se-te aos milhares, sorumbáticos, que te impelem de enxergares a alegria que outrora já experimentaste. Não, crês que tudo isso é improfícuo, o que já viveste vivido está, passado cuja ressurreição e revivescência é esforço desmesurado, objectivo vago, de quezilento desvalor . E é nesta melancólica vida em que te tomas por protagonista, que submissa e imponentemente, aceitas o amanhã ricamente farto em novas amarguras.
Tanta a tristeza que transparece do teu olhar. Suavemente principia a escorrer no canto do teu olho parco e cansado, uma atrevida lágrima que espreita a tua rosada face já profundamente enrugada pela velhice. Afago-ta, hesitante. Vivo o teu sofrimento, a tua lúgubre vontade de viver, a obscuridão que te enterra no fatigante cansaço que jamais te libertará.
Ver-te assim, abatida, desarmada, derrotada, rendida perante a fugaz vida que te passou diante os olhos, enche-me o peito de mágoa!
Não tenho forças para enfrentar o teu olhar saudoso, angústia tanta! pois relanço-me para as tuas canículas mãos, as quais agarro, trenurosamente. Ah, quão meigos são delicados dedos teus, quão levemente branda e suave é a doçura da tua pele sénil. Procuro render-me ao teu abraço terno, mas os teus braços magros esfaldados e de desaza fraqueza mal me conseguem prender.
Eis então, se não que, esboças um sorriso frugal: falas do "gordo" da RTP, do maldito sono traidor que te atraiçoa na predilecta hora das telenovelas, na moça que foi ontem capa na Lux, nas memórias enclausuradas nesse relógio imperial sandeu que teme não mais parar, e regressas à saudade perdida no passado, deixada a braços do neto que amavas e que perdeste... ciclo volvido, retomas ao cânone da inútil existência vã que a tua amena temperança não consegue iludir: a solidão!

Derriças-te contra o cordão que te pesa as costas e te empurra diariamente para o abismo. A custo tomas-te por independente. Todos aspiram ao sucesso, à ganância, à sumptuosidade da vida... (caricato) tu apenas pedes mais 'movimento na rua' e nas 'escadas do prédio'.

Take care,
Maria Rebelo*

3 comentários:

Anônimo disse...

fiquei com vontade de conheçer a senhora! pela solidao todos nos passamos..nao importa ser velho ou novo..o que a torna tao significativa e caracteristica, é a maneira como a enfrentas! by desleixada

Anônimo disse...

a familia é das posses mais dúbias que conheço. houve momentos em que a detestaste. talvez porque ouvias desânimo e desagrado que te faziam reflectir no seu objecto a revolta de outras palavras que não vinham da tua consciência. hoje, pensas por ti própria e o que te apetece di-lo. fizeste-o bem e saíste-te maravilhosamente. pudesse a tua avó ouvir as palavras que aqui lhe dedicaste e ficaria derretida com tanto carinho.

Anônimo disse...

Felizes dos velhinhos. São velhos porque resistiram á dureza de muitas dores - umas morais e outras tantas físicas - e muitos sacrificios. Porém - se a vida é um bem - nunca foram velhinhos os que partiram mais cedo. Provavelmente gostariam de lá terem chegado também um dia. Sentir-se-iam nesse direito? Sim respondo eu. E o que é feito dos apenas provisóriamente novos? Têm consciencia que, lendo o que tu lês nas profundas rugas da pele da tua avó, cada uma mais profunda do que a outra, só têm que, aliviando-lhes o sofrimento, respeitando as suas incapacidades, se estão a preparar para serem também os velhinhos de amanhã? Esta consciencia dará mais razão a quem os beija.
Um velho beijão do cota Zé.