Foste-te embora. Foste-te embora sem nunca
teres tentado. Abandonaste a tentativa no preciso momento em que eu a
alimentava. E fizeste-o sem sequer ter sido eu a expulsar-te, como me é tão
habitual. Porquê? Não o atribuas à impossibilidade das banalidades; como se o
mais sincero dos sentimentos só pudesse brotar entre duas almas gémeas, como se
essa avalanche de rodopios frenéticos dos apaixonados só se pudesse apoderar
dos mais belos corpos celestes; como se as borboletas não me explodissem já das
órbitas com tão frenético bater de asas nesses olhares cruzados, relanceados,
difusos, profundos, ternos e cegos que trocávamos; como se o teu riso
embrulhado no meu e as tuas palavras dissimulando-se nas minhas, ambas tímidas
e claramente falsas, não fossem fórmula bastante para denunciar intenções
reais. Não culpes os ideais estéticos ou as ambições antagónicas; nem tão
pouco culpes um qualquer pedestal onde me colocaste pois, se isso aconteceu,
foi porque tu me puseste lá, não eu. Não te desculpes, por fim, com
falta de auto-estima, consideração ou valor; pelo menos para ela o argumento
não valeu. Culpa-te a ti; a ti e à tua falta de coragem; a ti e à tua timidez
que só funciona para xizes mas já não para ipsilons; culpa-te a ti por não
saberes a linguagem dos sentidos, por não saberes decifrar sinais. Culpa-te só
a ti...
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Assinar:
Postar comentários (Atom)

3 comentários:
wow, muito forte! e muito bom !
E eu que não sabia.
Veio tarde mas valeu.
Postar um comentário